Ao Abril que Novembro matou, procurei novos amores!!! Prova isso a Esperança que voltou...
domingo, 14 de outubro de 2012
(Coluna de opinião do Semanário Expresso)
(Coluna de opinião do Semanário Expresso)
Nicolau Santos
Senhor
Primeiro-ministro,
depois das medidas que anunciou sinto uma força a crescer-me
nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes. Também eu, senhor
Primeiro-ministro. Só me apetece rugir!…O que o Senhor fez, foi um Roubo! Um Roubo
descarado à classe média, no alto da sua impunidade política! Por isso, um
duplo roubo: pelo crime em si e pela indecorosa impunidade de que se revestiu.
E, ainda pior: Vossa Excelência matou o País! Invoca Sua Sumidade, que as
medidas são suas, mas o défice é do Sócrates! Só os tolos caem na esparrela
desse argumento. O défice já vem do tempo de Cavaco Silva, quando, como bom
aluno que foi, nos anos 80, a mando dos donos da Europa, decidiu, a troco de
700 milhões de contos anuais, acabar com as Pescas, a Agricultura e a
Industria. Farisaicamente, Bruxelas pagava então, aos pescadores para não
pescarem e aos agricultores para não cultivarem. O resultado, foi uma total
dependência alimentar, uma decadência industrial e investimentos faraónicos no
cimento e no alcatrão. Bens, não transaccionáveis, que significaram o êxodo
rural para o litoral, corrupção larvar e uma classe de novos muitíssimo-ricos.
Toda esta tragédia, que mergulhou um País numa espiral deficitária, acabou,
fragorosamente, com Sócrates. O défice é de toda esta gente, que hoje vive
gozando as delícias das suas malfeitorias. E você é o herdeiro e o filho
predilecto de todos estes que você, agora, hipocritamente, quer pôr no banco
dos réus? Mas o Senhor também é responsável por esta crise. Tem as suas asas
crivadas pelo chumbo da sua própria espingarda. Porque deitou abaixo o PEC4, de
má memória, dando asas aos abutres financeiros para inflacionarem a dívida para
valores insuportáveis e porque invocou como motivo para tal chumbo, o carácter excessivo
dessas medidas. Prometeu, entretanto, não subir os impostos. Depois, já no
poder, anunciou como excepcional, o corte no subsídio de Natal. Agora, isto!
Até a este colossal embuste, que é o Orçamento
Geral do Estado. Diz Vossa Eminência que não tinha outra saída. Ou seja, todas
as soluções passam pelo ataque ao Trabalho e pela defesa do Capital Financeiro.
Outro embuste. Já se sabia no que resultaram estas mesmas medidas na Grécia: no
desemprego, na recessão e num défice ainda maior. Pois o senhor, incauto e
ignorante, não se importou de importar tão assassina cartilha. Sem Economia,
não há Finanças, deveria saber o Senhor. Com ainda menos Economia (a recessão
atingirá valores perto do 5% em 2012), com muito mais falências e com o
desemprego a atingir o colossal valor de 20%, onde vai Sua Sabedoria buscar
receitas para corrigir o défice? Com a banca descapitalizada (para onde foram
os biliões do BPN?), como traçará linhas de crédito para as pequenas e médias
empresas, responsáveis por 90% do desemprego? O Senhor burlou-nos e
espoliou-nos. Teve a admirável coragem de sacar aos indefesos dos
trabalhadores, com a esfarrapada desculpa de não ter outra hipótese. E há
tantas! Dou-lhe um exemplo: o Metro do Porto. Tem um prejuízo de 3.500 milhões
de euros, é todo à superfície e tem uma oferta 400 vezes (!!!) superior à
procura. Tudo alinhavado à medida de uns tantos autarcas, embandeirados por
Valentim Loureiro. Outro exemplo: as parcerias público-privadas, grande
sugadouro das finanças públicas. Outro exemplo: Dizem os estudos que, se V.
Ex.ª cortasse na mesma percentagem, os rendimentos das 10 maiores fortunas de
Portugal, ficaríamos aliviadinhos de todo, desta canga deficitária. Até porque
foram elas, as grandes beneficiárias desta orgia grega que nos tramou. Estaria
horas, a desfiar exemplos e Você não gastou um minuto em pensar em deslocar-se
a Bruxelas, para dilatar no tempo, as gravosas medidas que anunciou, para
Salvar Portugal! Diz Boaventura de Sousa Santos que o Senhor Primeiro-ministro
é um homem sem experiência, sem ideias e sem substrato académico para tais
andanças. Concordo! Como não sabe, pretende ser um bom aluno dos mandantes da
Europa, esperando deles, compreensão e consideração. Genuína ingenuidade! Com
tudo isto, passou de bom aluno, para lacaio da senhora Merkel e do senhor
Sarkhozy, quando precisávamos, não de um bom aluno, mas de um Mestre, de um
Líder, com uma Ideia e um Projecto para Portugal. O Senhor, ao desistir da
Economia, desistiu de Portugal! Foi o coveiro da nossa independência. Hoje, é,
apenas, o Gauleiter de Berlim. Demita-se, senhor primeiro-ministro, antes que
seja o Povo a demiti-lo.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Este aumento de impostos é um grito
“. Não tem lógica, não
tem política, não tem justiça, não tem estudos, não tem regras, não tem sequer
coerência ideológica. É uma arma que metralha contra uma selva escura.
Impostos, impostos, impostos. [...] O Governo destratou os portugueses quando
criou uma tropa de elite para tratar dos mercados e deixou vazia a cadeira da
política, onde se fala ao povo. Agora, o Governo precisa do povo. Mas
falha-lhe, não lhe dá o que povo exige. Merece. Precisa. [...]
Como podemos acreditar que há equidade sem dados para
percebê-lo? Quanto vão pagar as concessionárias de PPP, se é que vão? Qual é a
taxa sobre transacções financeiras? Que "grandes lucros" de empresas
vão ser tributados? Qual a dimensão da economia paralela?
Como será cortada despesa do Estado em quatro mil milhões de
euros, como a troika obriga? Vão despedir militares, polícias? Vão cortar
prestações sociais, subsídio de desemprego? Quanto? A quem? Não é uma falácia
dizer que os portugueses vão ficar melhor em 2013 do que ficariam com a TSU,
quando muitos vão ficar pior que em 2012? Como havemos de acreditar que a
economia "só" decresce 1% no próximo ano? O que nos garante que não
entramos em espiral recessiva? Por que razão a receita fiscal não quebrará no próximo
ano se quebrou neste? Quando acaba afinal esta crise? Em 2014? Em 2018? Em dois
mil e nunca? Que ambição podemos ter? Que gerações têm esperança? Que legado
deixaremos? Sem respostas, os portugueses não sabem sequer quanto dinheiro vão
ter daqui a três meses, quanto mais se acreditam no País. [...] Estamos mais
pobres, mas há cada vez mais ricos.)”
domingo, 30 de setembro de 2012
do Partido Politico MRPP - Partilho e copio...
Vive-se hoje em Portugal a ameaça contra-revolucionária mais
grave desde o golpe militar de 28 de Maio de 1926.
Actuando a soldo do imperialismo internacional e defendendo
interesses que lhe são próprios, a grande burguesia portuguesa está a executar
um plano de esmagamento total dos direitos dos trabalhadores e de degradação
extrema das condições de vida e de trabalho do povo.
Pretende-se reduzir a remuneração do operário português até
ao nível da do operário chinês, colocar toda a população trabalhadora num
regime mínimo de subsistência, abreviar o tempo de existência dos idosos e
doentes e expulsar do país essa força de futuro que é a juventude trabalhadora
e estudantil.
A liquidação de Portugal como país soberano e independente
está a concretizar-se rapidamente em cada dia que passa e poderá tornar-se uma
realidade dificilmente reversível se não houver uma oposição de massas,
democrática e patriótica, que ponha rapidamente cobro a tais planos.
Para tentar vencer a resistência firme e generalizada do
povo português à política de traição nacional do governo PSD/CDS e da Tróica
germano-imperialista, foram já confiscados todos os direitos e preceitos
constitucionais e estão a ser preparadas toda a espécie de medidas de carácter
fascista para eliminar a democracia e instituir um regime de ditadura
terrorista sobre os trabalhadores e o povo.
A gravidade da situação presente exige o derrube imediato do
governo Coelho/Portas. Não pode haver a este respeito qualquer tipo de
hesitação por parte dos trabalhadores e das suas organizações e por parte de
todos os partidos e forças políticas que se reclamam da democracia e da
independência nacional.
A única força que pode derrubar o governo PSD/CDS e expulsar
a Tróica imperialista é a força organizada dos operários e trabalhadores
portugueses. O meio de luta mais importante e decisivo para alcançar este
objectivo é a greve geral nacional que paralise totalmente o país e una
firmemente os trabalhadores e os seus aliados.
Na situação presente, a greve geral não é o último mas sim o
primeiro meio de luta a que se deve recorrer para derrotar os planos da
contra-revolução e impor os direitos dos trabalhadores e dos cidadãos. Todas as
formas de luta específicas e sectoriais devem ser feitas confluir para este
objectivo.
É preciso fazer todas as greves gerais que forem necessárias
até o governo ser derrubado. Neste movimento é preciso estabelecer uma aliança
indestrutível entre os operários, os trabalhadores dos serviços, os pequenos e
médios empresários esmagados pela crise, os estudantes, os pensionistas e
idosos e todos os sectores democráticos e patrióticos.
A condição fundamental para conduzir o presente combate
político à vitória é a existência de um programa de governo que substitua o
actual, que retire o país da crise e que suscite o apoio da grande maioria do
povo português.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
O sonho de Pedro Passos Coelho
“Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em
matá-los, mas a verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles,
acabam por nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos
matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se quiséssemos
matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há gente muito piegas,
que não percebe que as decisões duras são para tomar, custe o que custar, e
que, se nos livrarmos de um terço, os outros vão ficar melhor. É por isso que
nós não os vamos matar. Eles é que vão morrendo. Basta que a mortalidade
aumente um bocadinho mais que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram
isso. O Mota Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de
anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que costumam
dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles lá sabem. Por
isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra isso e o que é importante
é a tendência. Como eles adoecem mais, é só ir dificultando cada vez mais o
acesso aos tratamentos. A natureza faz o resto. O Paulo Macedo também faz o que
pode. Não é genocídio, é estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante
é que estamos no caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é
preciso fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos
salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que
geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e não contribuem
com nada, que não têm deveres.
Estas tretas da
democracia e da educação e da saúde para todos foram inventados quando a
sociedade precisava de milhões e milhões de pobres para espalhar estrume e
coisas assim. Agora já não precisamos e há cretinos que ainda não perceberam que,
para nós vivermos bem, é preciso podar estes sub-humanos.
Que há um terço que
tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de ser o terço certo, os que
gastam os nossos recursos todos e que não contribuem. Tem de haver equidade. Se
gastam e não contribuem, tenho muita pena... os recursos são escassos. Ainda no
outro dia os jornais diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é
que os analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão
engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto são: os analfabetos,
os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres
(não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos
pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os
deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o
custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não
era justo. E temos de promover a justiça social.
O outro terço temos
de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de alguns operários e assim, mas
esta pouca vergonha de pensarem que mandam no país só porque votam tem de
acabar. Para começar, o país não é competitivo com as pessoas a viverem todas
decentemente. Não digo voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode
falar - mas a verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura.
Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir o
progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também precisam. A
chatice de não podermos eliminar os operários como aos sub-humanos é que
precisamos destes gajos para fazer algumas coisas chatas e, para mais (por
enquanto) votam - ainda que a maioria deles ou não vote ou vote em nós. O que é
preciso é acabar com esses direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem
o mínimo e vivam à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os
comunistas dizem que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a
estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que percebam
quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo de ficar sem
trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no meio da rua. E
enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para os anestesiar e para
pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de hip-hop e assim.
O outro terço são
profissionais e técnicos, que produzem serviços essenciais, médicos e
engenheiros, mas estes estão no papo. Já os convencemos de que combater a
desigualdade não é sustentável (tenho de mandar uma caixa de charutos ao Lobo
Xavier), que para eles poderem viver com conforto não há outra alternativa que
não seja liquidar os ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para
pagar a saúde deles não podemos pagar a saúde dos pobres.
Com um terço da
população exterminada, um terço anestesiado e um terço comprado, o país pode
voltar a ser estável e viável. A verdade é que a pegada ecológica da sociedade
actual não é sustentável. E se não fosse assim não poderíamos garantir o nível
de luxo crescente da classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou
ficar em Massamá a vida toda. O Ângelo diz que, se continuarmos a portar-nos
bem, um dia nós também vamos poder pertencer à elite.”
( José Vítor
Malheiros)
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
“Acta de Havana”
“18 de Julho de 1985
Fonte: Plaqueta: Prestes - Dívida Externa e a Paz.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, julho 2006.
Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive, 2006. A
cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos
termos da GNU Free Documentation License.
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Na cidade de Havana, de 15 a 18 de julho de 1985, reuniu-se
a Conferência Sindical dos Trabalhadores da América Latina e do Caribe sobre a
Dívida Externa.
Esta Conferência contou com a presença de dirigentes de 46
Centrais ou Confederações Sindicais Nacionais, 135 Organismos Sindicais
Profissionais ou Territoriais, 16 Organizações Camponesas, assim como 8
Organizações e Organismos Regionais e Internacionais. Em total, participaram da
Conferência 330 sindicalistas, pertencentes a 197 Organizações e procedentes de
29 países da América Latina e do Caribe.
O critério de que esta Conferência constituiu a reunião mais
ampla, unitária e representativa já realizada pelo movimento sindical
organizado da América Latina e do Caribe, foi unânime.
Da mesma forma os dirigentes sindicais e camponeses
presentes sublinharam o caráter oportuno e necessário desta reunião, que teve
lugar em um momento crucial para a independência política e econômica e para o
futuro dos povos da região.
Os participantes se referiram à extrema gravidade da crise
econômica atual, cujo aguçamento atinge a América Latina e o Caribe e coloca os
países da área numa situação ainda pior que a experimentada durante a época da
chamada Grande Depressão dos anos 30. O Produto Interno Bruto, referente à América
Latina, cresceu apenas 1,7% em 1981, baixou em termos absolutos em 1982 e 1983
aos níveis de –1% e 3% respectivamente e cresceu um débil e insuficiente 2,6%
em 1984. Isto significou que, em termos de Produto Interno Bruto por habitante,
a América Latina e o Caribe baixaram aos níveis que tinham há uns 10 anos
atrás.
Numerosos participantes deram ênfase à trágica situação
econômica e social que sofrem os povos latino-americanos, esmagados pela crise,
principalmente os trabalhadores da cidade e do campo, vítimas do desemprego, da
deterioração dos níveis de vida e do aumento alarmante da pobreza extrema e
fizeram referência às mudanças estruturais internas que a solução definitiva
destes problemas requer.
Sobre isso se destacou que na América Latina e no Caribe
existem uns 56 milhões de desempregados totais e uns 110 milhões de
desempregados, se se considera o sub-emprego. Não menos de 40% da população
latino-americana vive nos limites inferiores da pobreza absoluta e 30% abaixo
desses limites.
A totalidade dos participantes destacou que a dívida externa
é a manifestação mais dramática da actual crise, assim como o factor mais
importante, que não apenas tende a aprofundá-la, mas também impede a
recuperação económica, bloqueia toda a possibilidade de desenvolvimento,
submete os nossos povos e, especialmente os trabalhadores, a insuportáveis
políticas restritivas dos seus níveis de vida, comprometendo a nossa soberania
ao aprofundar a dependência em relação aos bancos credores, ao FMI e aos
governos dos países industrializados que controlam as decisões desse organismo.
Os participantes analisaram os elementos mais importantes do
processo de rápido endividamento latino-americano e as causas que o explicam.
Assinalaram que essas causas se encontram nos princípios de funcionamento da actual
e injusta ordem económica internacional, especialmente ao intercâmbio desigual
que nos obriga a vender cada vez mais barato e comprar cada vez mais caro, o
que somente em 1984 representou perdas em uns 20 milhões de dólares; o proteccionismo
e a prática do "dumping", baseados na egoísta política de subsídios a
produtos que não poderiam concorrer nos mercados e contradizem as hipócritas
adesões retóricas ao livre comércio, que frequentemente fazem os Governos dos
Estados Unidos e da Comunidade Económica Europeia. Os efeitos combinados das
altas taxas de juros e da supervalorização do dólar, que representaram um custo
adicional de 45 milhões de dólares anuais para as economias da região, ao
aumentarem os pagamentos por juros, provocam o crescimento da fuga de capitais
— que atinge no mesmo período a mais de 10 bilhões de dólares — o custo das
amortizações em dólares e agravam a inflação.
Os participantes destacaram também a irresponsabilidade dos
bancos credores que, na competição para colocar os seus capitais em forma de
empréstimos, passaram por cima das normas de segurança bancária e induziram os
países da região, a contraírem dívidas para sustentar os enormes lucros que
ditos bancos obtiveram e continuam obtendo.
Houve também unanimidade quanto à condenação à política e
aos princípios de actuação do FMI, instituição que reflecte os interesses dos
bancos credores e dos governos que o criaram e o controlam. O FMI, com o seu
rígido enfoque monetarista, que apenas atende ao comportamento das variáveis
monetárias e do equilíbrio fiscal, enquanto mostra total indiferença pelas
duras realidades sociais da América Latina e do Caribe — o desemprego e o
empobrecimento dos trabalhadores — está desempenhando um funesto papel.
Demonstrou ser o gendarme que cuida dos benefícios dos bancos e a instituição
que tem a missão de fazer, não apenas a supervisão, mas também a repressão económica
sobre os países latino-americanos.
Os participantes chegaram ao acordo de qualificar como
falsas soluções do problema da dívida, as contínuas renegociações que, a um
alto custo e sob as ignominiosas condições impostas pelo FMI, só servem para
prolongar a agonia e reforçar a dependência e a submissão dos nossos países.
A crise da dívida, é como uma corda apertada no pescoço,
asfixiando os povos e os trabalhadores latino-americanos e caienenses.
Apertá-la mais equivale à morte. A única alternativa é encarar com firmeza,
dignidade, unidade e solidariedade, este desafio que enfrentamos.
A grande maioria dos participantes pronunciou-se pela
anulação da dívida externa. Outros sindicalistas apresentaram variantes de
moratória, suspensão imediata dos pagamentos ou adiamento por um determinado
número de anos, inclusive os juros. Não obstante todos coincidiram na impossibilidade
do seu pagamento.
Esta solução exposta é actualmente condição indispensável
para iniciar a recuperação económica e dos níveis de emprego, de educação, de
saúde e de previdência social na América Latina e no Caribe, inclusive para
aspirar a exercer uma verdadeira soberania sobre o nosso destino político e o
nosso destino económico, a partir da eliminação desse instrumento de
dependência e coerção externas. Os participantes também chamaram a atenção de a
anulação, a moratória, a suspensão imediata dos pagamentos, ou o adiamento, por
um determinado número de anos, da dívida e dos juros, é indispensável para a
sobrevivência dos processos democráticos na região, e expressaram que, se
pretendessem continuar cobrando a qualquer preço esta dívida, haveria explosões
sociais generalizadas em consequência da insuportável situação a que foram
levados os trabalhadores e as massas populares.
Alguns povos da
região, com a sua heróica resistência ante as imposições do FMI, já
demonstraram dramaticamente o esgotamento destes limites.
Houve também ampla
coincidência sobre a necessidade de ligar, indissoluvelmente, a solução
apresentada para o problema da dívida externa, com o estabelecimento da Nova
Ordem Econômica Internacional, cujos princípios foram aprovados pela Assembleia
Geral das Nações Unidas, em 1974. Os participantes afirmaram que, se não forem
eliminados fenómenos de efeitos tão negativos para a América Latina e o Caribe,
como o intercâmbio desigual, a injusta prática do proteccionismo que afecta os
nossos países, a acção descontrolada das empresas multinacionais, as
manipulações monetárias e financeiras, que estabelecem altas taxas de juros e
propiciam a supervalorização do dólar, entre outros, em prazo não muito longo
se esgotaria o alívio resultante em curto prazo e voltaríamos a estar em
similar ou em pior situação que a actual.
Igualmente, grande
maioria apoiou a ideia sobre o imprescindível exercício da mais firme e
solidária unidade latino-americana, para que, junto às acções ante a dívida
externa e a luta pelo estabelecimento de uma Nova Ordem Económica
Internacional, avancemos resolutamente para a integração económica regional e a
utilizemos como um poderoso meio para o desenvolvimento económico, o
fortalecimento da capacidade de negociação e a elevação do nível de vida dos
trabalhadores e de todos os nossos povos.
Relacionado com o
anterior, a Conferência resolveu que os sindicalistas que nela participaram,
dirijam-se às respectivas organizações, a que pertencem, e lhes proponham
mobilizar os trabalhadores e fazer suas estas três bandeiras de luta:
•Pela anulação, pela
moratória, pela suspensão imediata dos pagamentos, ou adiamento indefinido da
dívida externa, inclusive os juros!
•Pelo estabelecimento da Nova Ordem Económica Internacional!
•Pela unidade latino-americana e caribense! Pelo avanço em direcção
a formas de integração económica da América Latina e do Caribe, a serviço do
desenvolvimento e da independência dos nossos países!
Os dirigentes sindicais presentes coincidiram também,
plenamente, em assinalar que, para realizar estes objectivos e ante a gravidade
da crise, que sofrem da mesma maneira, todos os trabalhadores e povos da
região, é indispensável que as distintas tendências e correntes do movimento
sindical, continuem trabalhando para encontrar uma ampla base de acordo, de carácter
prático, que nos permita uma contribuição cada vez mais efectiva, para a luta
pelos direitos dos nossos filiados e dos nossos países, sem menosprezar nossas
respectivas posições e como expressão do sentido de responsabilidade histórica
e do espírito latino-americanista e caribense que a todos nos impulsiona.
Os participantes da
Conferência destacaram também que a carreira armamentista e as políticas de
ingerência e agressão aguçam a crise económica, repercutem negativamente sobre
a dívida externa e diminuem os recursos necessários ao desenvolvimento.
Portanto, sublinharam que a luta pela diminuição das despesas militares está
indissoluvelmente ligada à luta pela paz e pelo desenvolvimento dos nossos
povos.
Chegaram ao acordo
unânime, de que esta reunião fez uma histórica contribuição para esse objectivo,
ao propiciar um diálogo exemplarmente democrático, respeitoso e num plano de
absoluta igualdade de todas as correntes do sindicalismo continental, em que
cada dirigente pôde expor os critérios do movimento sindical do seu país, da
sua organização, ou suas próprias opiniões, pessoais, segundo o caso, num
ambiente de plena liberdade.
A Central de
Trabalhadores de Cuba, como organização responsabilizada com a preparação da
reunião, sublinhou, desde o primeiro momento, que não se pretendia que esta
Conferência conduzisse a acordos de carácter resolutivo. Apesar disso, durante
a reunião se manifestou um amplo consenso entre os sindicalistas participantes,
no sentido de adoptar recomendações de acção e levá-las à consideração das
diferentes organizações a que pertencem os dirigentes sindicais reunidos em Havana.
As proposições
acordadas, que recolhem o sentir da imensa maioria dos participantes, são as
seguintes:
1.Propor ao movimento
sindical organizado que exija dos governos dos seus respectivos países a adopção
de medidas que conduzam à anulação, à moratória ou ao adiamento por um
determinado número de anos, do pagamento da dívida externa, e à solidariedade
com os outros países da América Latina e do Caribe que assumam esta mesma
posição.
2.Sugerir às organizações operárias que, de acordo com as
condições concretas de cada país, promovam a incorporação dos governos a uma
frente unida de países devedores da América Latina e do Caribe, que possa
servir como interlocutora ante os bancos privados, dos organismos financeiros
internacionais e dos governos dos países industrializados credores.
3.Recomendar que os dirigentes sindicais e camponeses
participantes do encontro proponham às organizações a que pertencem, continuar
com a análise do problema da dívida externa com a mais ampla participação
possível, a fim de tentar chegar a um critério comum sobre as suas causas, as
suas repercussões e a estratégia de luta que se deve seguir em cada país, ante
esta situação.
4.Levar às organizações sindicais e camponesas a sugestão de
que na luta pela solução do problema da dívida liguem-se estreitamente a outras
forças sociais e às suas correspondentes organizações, tais como os estudantes
e jovens, intelectuais, empresários, sectores religiosos, femininos, moradores,
organismos de defesa dos direitos humanos e instituições de profissionais.
5.Fazer chegar os resultados da Conferência aos chefes de
estado ou de governo dos países da América Latina e do Caribe, à Organização
das Nações Unidas e aos organismos económicos globais e regionais que fazem
parte do seu sistema, ao SELA, aos governos e às instituições financeiras
oficiais e privadas dos países credores, e a todas aquelas personalidades e
organizações que considerem oportuno.
6.Efetuar a mais ampla divulgação dos resultados da
Conferência entre os trabalhadores e povos respectivos, assim como a informação
disponível sobre a crise económica que suportam os países da nossa região, e
suas principais manifestações, em primeiro lugar a dívida externa.
7.Apoiar as próximas acções unitárias do movimento sindical
latino-americano e caribense, que poderiam incluir a criação dos mecanismos de
coordenação propostos com vigor, nesta Conferência, pela maioria dos
participantes, afim de impulsionar em direcção a objectivos superiores, a luta
dos trabalhadores organizados do continente, ante os problemas que coloca a
dívida externa.
8.Convocar todos os trabalhadores e todas as organizações
sindicais da América Latina e do Caribe para a realização no próximo 23 de Outubro
de um dia de acção continental contra a dívida externa e seus catastróficos
efeitos sobre a vida económica e social dos nossos países.
9.Dar apoio a todas as convocações regionais ou
sub-regionais sobre o tema da dívida externa como, por exemplo, a Conferência
Sindical convocada pelas centrais sindicais do Cone Sul, que se realizará em
fins deste ano; assim como a celebração da próxima Conferência Sindical dos
Trabalhadores da América Latina e do Caribe, que vai ser realizada na Bolívia,
convocada pela Centrai Operária Boliviana, afim de dar continuidade a este
esforço e patentear, ao mesmo tempo, a solidariedade com os trabalhadores desse
país irmão, país que é um dos que com maior rigor sofrem actualmente as consequências
destrutivas da crise económica e da dívida externa.
10.Os participantes da Conferência, inspirados na herança
histórica inscrita nos livros sagrados dos Maias: "Que todos se levantem,
que se chame a todos, que não haja nem um nem dois entre nós, que fique
atrás", reiteram, finalmente, o compromisso de lutar:
PRIMEIRO: PELA ANULAÇÃO, PELA MORATÓRIA, PELA SUSPENSÃO
IMEDIATA DOS PAGAMENTOS OU ADIAMENTO INDEFINIDO DA DÍVIDA EXTERNA, INCLUSIVE OS
JUROS!
SEGUNDO: PELO
ESTABELECIMENTO DA NOVA ORDEM ECONÔMICA INTERNACIONAL!
TERCEIRO: PELA
UNIDADE LATINO-AMERICANA E CARIBENSE! PELO AVANÇO EM DIREÇÃO A FORMAS DE
INTEGRAÇÃO ECONÔMICA DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE, AO SERVIÇO DO
DESENVOLVIMENTO E DA INDEPENDÊNCIA DOS NOSSOS PAÍSES!
E para deixar
constância da presente, subscrevem todos os participantes aos 18 dias do mês de
Julho de 1985.”
sábado, 22 de setembro de 2012
darwinismo social
O darwinismo social anda de novo por aí. Nos discursos oficiais, no programa dos governos, nas políticas europeias, na cabeça de intelectuais e comentadores. Resume-se numa ideia simples. Só os mais fortes sobreviverão aos desafios do tempo presente. Os fracos serão varridos.
O darwinismo social surgiu em finais do século 19 aplicando algumas ideias de Darwin à sociedade humana. Darwin não teve culpa, nem voz na matéria. Mas a sua teoria da seleção natural que favorece os mais aptos e mais fortes, eliminando os inadaptados e fracos, serviu bastante bem aos defensores daquilo a que agora chamamos neoliberalismo e, no extremo, conduziu, entre outras coisas, ao fascismo, às raças superiores e ao extermínio dos judeus, ciganos e outros grupos considerados decadentes pelos nazis.
Fora de moda por algum tempo, o darwinismo social tem vindo a ganhar terreno nos últimos anos pelo efeito conjugado do forte stress ambiental provocado pela emergência das novas tecnologias e pela sobrevalorização do chamado mercado livre (que, diga-se de passagem, de livre não tem nada). A revolução tecnológica em curso tem levado a fenómenos de inadaptação em massa, enquanto a desregulação dos mercados tem provocado sucessivas crises financeiras e políticas e cavado um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Neste contexto, vai emergindo um conjunto de ideias e práticas que sobrevalorizam a competição, a lei do mais forte, os nacionalismos, a arrogância, as segregações de toda a a espécie.
É assim que hoje usamos palavras que nos parecem ajustadas mas que, vistas de perto, derivam da visão do darwinismo social. Competitividade, por exemplo, uma das mais vulgarizadas, reproduz o mecanismo da seleção natural, no qual só os que são muito competitivos conseguem vencer. Os outros, sejam eles pessoas ou países e a quem falta o "killer instinct", condenam-se ao ostracismo e à extinção.
Também as políticas de austeridade em curso têm tudo a ver com o darwinismo social. Trata-se de uma brusca alteração no meio ambiente, provocada expressamente pelos governos, como forma de eliminar os mais fracos e favorecer os mais fortes. A este propósito, basta atender às palavras de Passos Coelho com os seus conselhos para os jovens emigrarem ou quando afirma que o desemprego é uma oportunidade, ou seja, adaptem-se ou perecerão. Ou melhor ainda, ouvir os atuais governantes alemães. Neste caso, não estamos longe de uma espécie de eugenismo social e cultural, sendo que nós, portugueses, gregos, espanhóis e outras minorias preguiçosas e decadentes temos de mudar ou seremos extintos. Como diz um amigo, no panorama atual ou nos tornamos alemães ou morremos.
O darwinismo social conseguiu generalizar a ideia de que só se cria qualquer coisa de novo e inovador, ou se tem sucesso na vida, por meio de um comportamento ferozmente competitivo. Esquece outras componentes fundamentais da criatividade, desde logo a cooperação, a combinação ou a sinergia, sobrevalorizando a disputa brutal e selvagem, aliás, a mesma que impera hoje nos mercados financeiros com o resultado que se conhece.
Mas esquece outra coisa. A humanidade inventou algo que não existe nos genes nem nos processos evolutivos naturais. Chama-se cultura. E esta tem uma lógica divergente da mera competição entre fracos e fortes, predadores e presas. A cultura leva os humanos a fazerem coisas que vão contra a genética. Por exemplo, a ética, o altruísmo, a solidariedade. A cultura cria um quadro de comportamento moral e civilizacional que não tem paralelo na seleção natural. E gera também sentimentos de injustiça e de revolta como forma de resistir à brutalidade da competição.
Atraente para alguns, porque estimula comportamentos agressivos e apresenta como tolerável o intolerável, o darwinismo social representa, na verdade, um retrocesso na própria evolução civilizacional da espécie humana. Afinal vivemos para a competição feroz ou para a felicidade? Existimos para exterminar os outros ou para melhorar a condição de todos?
Leonel Moura
O darwinismo social surgiu em finais do século 19 aplicando algumas ideias de Darwin à sociedade humana. Darwin não teve culpa, nem voz na matéria. Mas a sua teoria da seleção natural que favorece os mais aptos e mais fortes, eliminando os inadaptados e fracos, serviu bastante bem aos defensores daquilo a que agora chamamos neoliberalismo e, no extremo, conduziu, entre outras coisas, ao fascismo, às raças superiores e ao extermínio dos judeus, ciganos e outros grupos considerados decadentes pelos nazis.
Fora de moda por algum tempo, o darwinismo social tem vindo a ganhar terreno nos últimos anos pelo efeito conjugado do forte stress ambiental provocado pela emergência das novas tecnologias e pela sobrevalorização do chamado mercado livre (que, diga-se de passagem, de livre não tem nada). A revolução tecnológica em curso tem levado a fenómenos de inadaptação em massa, enquanto a desregulação dos mercados tem provocado sucessivas crises financeiras e políticas e cavado um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Neste contexto, vai emergindo um conjunto de ideias e práticas que sobrevalorizam a competição, a lei do mais forte, os nacionalismos, a arrogância, as segregações de toda a a espécie.
É assim que hoje usamos palavras que nos parecem ajustadas mas que, vistas de perto, derivam da visão do darwinismo social. Competitividade, por exemplo, uma das mais vulgarizadas, reproduz o mecanismo da seleção natural, no qual só os que são muito competitivos conseguem vencer. Os outros, sejam eles pessoas ou países e a quem falta o "killer instinct", condenam-se ao ostracismo e à extinção.
Mas esquece outra coisa. A humanidade inventou algo que não existe nos genes nem nos processos evolutivos naturais. Chama-se cultura. E esta tem uma lógica divergente da mera competição entre fracos e fortes, predadores e presas. A cultura leva os humanos a fazerem coisas que vão contra a genética. Por exemplo, a ética, o altruísmo, a solidariedade. A cultura cria um quadro de comportamento moral e civilizacional que não tem paralelo na seleção natural. E gera também sentimentos de injustiça e de revolta como forma de resistir à brutalidade da competição.
Leonel Moura
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
O medo ensopa o país
"O medo ensopa o país. Dissemina-se de mansinho por todo o lado como a peste. Penetra nas escolas, nas famílias. E nas repartições, esquadras, quartéis, empresas, mercados, câmaras, tribunais. Não há quarentena que o valha.
O medo espalha o medo. Nos infantários, escolas primárias, escolas de 2º e 3º ciclo, escolas secundárias, universidades. O medo manda dezenas de milhar de professores para casa com medo. E os que estão na escola a medo ficam. Foçam em papelada transidos de medo. Na aula frente aos alunos sorriem a medo. Os alunos vêem o baço brilho do medo nos olhos docentes. Os alunos brincam, estudam, distraem-se. Mas pressentem a ameaça. O medo já vive dentro deles.
O medo mandou transformar novas oportunidades em velhíssimas inoportunidades. Mascara com as defuntas novas oportunidades a diminuição de alunos para justificar o despedimento de professores. O medo manda atulhar os alunos em contentores que fazem lembrar as salas de aula do passado recente. O medo manda milhares de alunos para a rua da universidade porque não podem pagar as propinas e passam fome. E têm medo porque lhes estão a saquear o futuro.
O medo de hoje nasceu na rua de S. Caetano à Lapa e no Largo do Caldas de forma legítima directamente vertido das urnas abertas. O medo mentiu sem vergonha para entrar com pompa no Palácio de S. Bento. Subiu decidido à rua Gomes Teixeira. Propagou-se pelo Terreiro do Paço. Chegou ao Palácio Ratton e ao Palácio de Belém.O medo faz medo com o medo que tem do FMI, do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia.
E agora o medo tem medo da rua. Encapsula-se com medo a sete chaves em recintos fechados por muros de polícias. No Aquashow, em Quarteira, no fim das férias. Na fortaleza da Gomes Teixeira.
O medo tem medo de ir à RTP explicar-se a medo. Medo dos trabalhadores e da populaça que possa vociferar na Gomes da Costa. O medo chama a parafernália de carros de exteriores, parabólicas, técnicos, para uma transmissão televisiva em directo do seu bunker. O medo por ter medo não tem pudor em esbanjar assim dinheiros públicos.
O medo manda um ministro de Estado, agora silencioso e outrora palavroso e que não admitia mais austeridade, cancelar à última hora a sua presença na homenagem a um antigo presidente do Brasil, apesar de lá ter regressado há pouco de um passeio oficial. E manda o inefável desmemoriado ministro da 5 de Outubro substitui-lo.
E o medo tem medo de apear a segunda figura do governo que comprou um canudo nos salvados da feira da ladra em que uma universidade por onde passou furtivo se transformou.
O medo atingiu quem pode porque amanhã tem medo de não poder. O medo finge não ter medo de espoliar reformados e trabalhadores por conta de outrem para meter no bolso da administração de empresas grandes o dinheiro que será seu e que fará dele tudo o que entender menos criar emprego porque as pessoas com medo fazem dieta espartana e não consomem mais do que aconchegos de estômago.
As pequenas empresas agonizam e fecham as portas. E a calçada frente ao Instituto de Emprego peja-se de gente que a medo vai mendigar ao Estado o subsídio que tarde e a medo chega.
O medo manda para a emigração gente qualificada com medo e necessidade de sobreviver, como outrora mandava muito querido jovem compatriota dar o salto para um qualquer bidonville de Paris a preencher o buraco na barriga ou para fugir dos buracos que as balas, minas e armadilhas em África podiam abrir nos camuflados.
O medo finge não ter medo da raiva em que o medo se pode metamorfosear. Em palavras obscenas de angústia, em bandeiras negras de cólera, em ovos que falham o alvo. Ou, esperemos que nunca, em balas como as que mataram o penúltimo rei ou o quarto presidente da República, o ditador Sidónio.
O medo pode levar a perder o medo. E o medo perdido incendeia cabeças perdidas. E as cabeças perdidas, em solitário ou em bandos radicais, metem mesmo muito medo."José Alberto Quaresma
O medo espalha o medo. Nos infantários, escolas primárias, escolas de 2º e 3º ciclo, escolas secundárias, universidades. O medo manda dezenas de milhar de professores para casa com medo. E os que estão na escola a medo ficam. Foçam em papelada transidos de medo. Na aula frente aos alunos sorriem a medo. Os alunos vêem o baço brilho do medo nos olhos docentes. Os alunos brincam, estudam, distraem-se. Mas pressentem a ameaça. O medo já vive dentro deles.
O medo mandou transformar novas oportunidades em velhíssimas inoportunidades. Mascara com as defuntas novas oportunidades a diminuição de alunos para justificar o despedimento de professores. O medo manda atulhar os alunos em contentores que fazem lembrar as salas de aula do passado recente. O medo manda milhares de alunos para a rua da universidade porque não podem pagar as propinas e passam fome. E têm medo porque lhes estão a saquear o futuro.
O medo de hoje nasceu na rua de S. Caetano à Lapa e no Largo do Caldas de forma legítima directamente vertido das urnas abertas. O medo mentiu sem vergonha para entrar com pompa no Palácio de S. Bento. Subiu decidido à rua Gomes Teixeira. Propagou-se pelo Terreiro do Paço. Chegou ao Palácio Ratton e ao Palácio de Belém.O medo faz medo com o medo que tem do FMI, do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia.
E agora o medo tem medo da rua. Encapsula-se com medo a sete chaves em recintos fechados por muros de polícias. No Aquashow, em Quarteira, no fim das férias. Na fortaleza da Gomes Teixeira.
O medo tem medo de ir à RTP explicar-se a medo. Medo dos trabalhadores e da populaça que possa vociferar na Gomes da Costa. O medo chama a parafernália de carros de exteriores, parabólicas, técnicos, para uma transmissão televisiva em directo do seu bunker. O medo por ter medo não tem pudor em esbanjar assim dinheiros públicos.
O medo manda um ministro de Estado, agora silencioso e outrora palavroso e que não admitia mais austeridade, cancelar à última hora a sua presença na homenagem a um antigo presidente do Brasil, apesar de lá ter regressado há pouco de um passeio oficial. E manda o inefável desmemoriado ministro da 5 de Outubro substitui-lo.
E o medo tem medo de apear a segunda figura do governo que comprou um canudo nos salvados da feira da ladra em que uma universidade por onde passou furtivo se transformou.
O medo atingiu quem pode porque amanhã tem medo de não poder. O medo finge não ter medo de espoliar reformados e trabalhadores por conta de outrem para meter no bolso da administração de empresas grandes o dinheiro que será seu e que fará dele tudo o que entender menos criar emprego porque as pessoas com medo fazem dieta espartana e não consomem mais do que aconchegos de estômago.
As pequenas empresas agonizam e fecham as portas. E a calçada frente ao Instituto de Emprego peja-se de gente que a medo vai mendigar ao Estado o subsídio que tarde e a medo chega.
O medo manda para a emigração gente qualificada com medo e necessidade de sobreviver, como outrora mandava muito querido jovem compatriota dar o salto para um qualquer bidonville de Paris a preencher o buraco na barriga ou para fugir dos buracos que as balas, minas e armadilhas em África podiam abrir nos camuflados.
O medo finge não ter medo da raiva em que o medo se pode metamorfosear. Em palavras obscenas de angústia, em bandeiras negras de cólera, em ovos que falham o alvo. Ou, esperemos que nunca, em balas como as que mataram o penúltimo rei ou o quarto presidente da República, o ditador Sidónio.
O medo pode levar a perder o medo. E o medo perdido incendeia cabeças perdidas. E as cabeças perdidas, em solitário ou em bandos radicais, metem mesmo muito medo."José Alberto Quaresma
sábado, 15 de setembro de 2012
"Claro, o capital não pode resolver sua crise."
"Como o senhor vê a luta de classes hoje e os movimentos de
protesto que falam em transformação através da ideia de que somos “os 99%”? Há
dois tipos de possibilidades sendo debatidas. Uma seria manter o capitalismo
através de mecanismos de retenção e regulação, o que poderia causar flutuações,
mas não grandes fracturas. Seria uma forma de reorquestrar o capitalismo para
que não causasse tantos danos como hoje, para promover mais igualdade, alguma
distribuição de riqueza e sustentabilidade ambiental, como muitos na esquerda
defendem. Outras pessoas dizem que não há saída no modo de produção capitalista
e que é necessário buscar outras alternativas, com mudanças estruturais
políticas e económicas. É claro que as crises podem ocorrer em qualquer
sistema, já que não é possível imaginar uma sociedade onde tudo funcionaria
perfeitamente. Mas em um sistema não-capitalista as crises seriam de outro
tipo. Acho que estamos nessa encruzilhada histórica, onde não temos muita
segurança do que seria possível. Então surge o debate sobre reforma ou
revolução. Eu acredito que há reformas que levam à revolução. As economias se
tornaram tão interdependentes que uma proposta de revolução imediata poderia
gerar catástrofes com muitas mortes. Então a questão seria avaliar que tipo de
reformas teria um carácter revolucionário e levaria a outro sistema que
abolisse a relação de classe, já que a essência do capitalismo é a relação
entre capital e trabalho. Portanto, um projecto anticapitalista teria de
erradicar a relação de classe. Há diversos movimentos pensando nessa direcção
como, por exemplo, as cooperativas de trabalhadores que recuperaram fábricas,
mas alguns acabam reproduzindo um sistema de exploração capitalista, no qual os
trabalhadores são seus próprios patrões. Portanto, não é suficiente pensarmos
em termos de microeconomia, é necessário repensar a macroeconomia."
David Harvey
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
MEDIDAS ANUNCIADAS POR PASSOS COELHO PARA 2013 AGRAVAM AINDA MAIS AS
"Trabalhadores e pensionistas sofrem um corte de 5.540 milhões € nos seus rendimentos, patrões recebem
um bónus de 2.200 milhões €
RESUMO DESTE ESTUDO
Passos Coelho no discurso que fez perante as câmaras da TV, em 7.9.2013, de apresentação das
novas medidas de austeridade para 2013 afirmou o seguinte: “ O que propomos é um contributo
equitativo, um esforço de todos para o objetivo comum, como exige o Tribunal
Constitucional … Foi com este propósito que o governo decidiu aumentar a contribuição
(dos trabalhadores) para a Segurança Social (de 11%) para 18%, o que nos permitirá, em
contrapartida descer a contribuição exigida às empresas (ou seja, aos patrões) também (de
23,75%) para 18%” Isto significa que os trabalhadores do setor privado terão de contribuir para a
Segurança Social com mais 2.700 milhões € (+63,6%), e os patrões de contribuir com menos
2.200 milhões € (-24,2%). E é precisamente a isto que Passos Coelho chama descaradamente
“um contributo equitativo, um esforço de todos para o objetivo comum”. Para além disso, constitui
também uma grande mentira afirmar, como fez Passos Coelho e seus defensores, que a redução
das contribuições patronais para a Segurança Social em 5,75 pontos percentuais vai aumentar a
competitividade das empresas e criar emprego, pois aquela redução de 24,2% (os 5,75 p.p.) nas
contribuições pagas pelos patrões determina uma redução nos custos das empresas que
estimamos entre 1,5% e 2,46% com base num estudo que fizemos com dados de um relatório do
próprio governo (ver nosso estudo 36 de 2011), portanto uma redução sem impacto significativo
que é facilmente anulada por qualquer variação na taxa de câmbio. E as empresas não criam
emprego se não existir clientes com poder de compras a quem possam vender, e as medidas
agora anunciadas pelo 1º ministro vão reduzir ainda mais o poder de compra dos portugueses
Mas a estranha equidade de Passos Coelho não fica por aqui pois, no mesmo discurso, anunciou
também as seguintes medidas: “A subida de 7 pontos percentuais será ainda aplicada aos
funcionários públicos”, ou seja, eles terão de descontar nas remunerações que recebem mais
850 milhões € por ano para a CGA (portanto, os trabalhadores da Função Pública passarão, em
2013, a descontar 18% para a CGA mais 1,5% para a ADSE, o que soma 19,5%). E para além
deste aumento de contribuições para a CGA, o “corte do segundo subsidio é mantido nos
termos já definidos na lei do Orçamento do Estado para 2012, o que significa que, em 2013,
os trabalhadores da Função Pública vão sofrer também um corte direto nas suas remunerações
nominais que estimamos em 540 milhões € só por esta razão. E o aumento dos descontos para a
Segurança Social e CGA, enquanto o PSD e CDS forem governo é para se manter. Segundo
também Passos Coelho, “No caso dos pensionistas e reformados (reformados da Segurança
Social e os aposentados da Função Publica), o corte dos dois subsídios permanecerá em
vigor. A duração da suspensão dos subsídios, tanto no caso dos funcionários, como nos
dos pensionistas e reformados, continuará a ser determinado pelo período de vigência do
Programa de Assistência Económica e Financeira”, ou seja, pelo menos até ao fim de 2014. Só
em 2013, os reformados do setor privado sofrerão um corte nas suas pensões que estimamos em
750 milhões €, e os aposentados da Função Pública terão um corte nas suas pensões que
calculamos em 700 milhões €; portanto, para empregar as palavras de Passo Coelho, governo e
troika estão-se a “lixar” para as decisões do Tribunal Constitucional.
Em relação aos rendimentos da propriedade e do capital que, em 2011, segundo o INE atingiram
mais de 51.961 milhões € (é igual a 78% dos ordenados e salários recebidos por todos os
trabalhadores portugueses), e relativamente a 18.106 milhões € de rendimentos transferidos para
o estrangeiro de aplicações feitas em Portugal por não residentes, que não pagam impostos,
Passos Coelho não anunciou qualquer medida, porque se está também a “lixar” para o Tribunal.
Paul Krugman, Nobel da economia, para explicar este comportamento dos governantes de
pequenos países escreveu estas palavras esclarecedoras que deviam merecer uma atenção
especial por parte dos portugueses já que ajudam a compreender a situação atual: “Se alguns
deles terminar o mandato usufruindo de grande estima por parte do grupo de Davos (fórum
mundial anual constituído pelos representantes dos grandes grupos económicos internacionais e
pelos governantes dos maiores países) há uma infinita série de postos na Comissão Europeia, no
FMI ou em organismos afins para os quais poderá ser elegível mesmo que seja desprezado pelos
seus próprios conterrâneos. Aliás, ser desprezado seria de certa forma uma mais-valia”. E é
sabido que Vitor Gaspar é o pupilo preferido do ministro alemão das Finanças. Para além disso
Krugman também refere o fenómeno que designa por “porta giratória” entre o governo e cargos
bem pagos nos grupos económicos nos seguintes termos: “Esta porta já existe há muito tempo,
mas o salário que se consegue obter se a indústria gostar deles é imensamente maior do que
aquilo que costumava ser, e daí a necessidade de acomodar as pessoas que estão do outro lado."
um bónus de 2.200 milhões €
RESUMO DESTE ESTUDO
Passos Coelho no discurso que fez perante as câmaras da TV, em 7.9.2013, de apresentação das
novas medidas de austeridade para 2013 afirmou o seguinte: “ O que propomos é um contributo
equitativo, um esforço de todos para o objetivo comum, como exige o Tribunal
Constitucional … Foi com este propósito que o governo decidiu aumentar a contribuição
(dos trabalhadores) para a Segurança Social (de 11%) para 18%, o que nos permitirá, em
contrapartida descer a contribuição exigida às empresas (ou seja, aos patrões) também (de
23,75%) para 18%” Isto significa que os trabalhadores do setor privado terão de contribuir para a
Segurança Social com mais 2.700 milhões € (+63,6%), e os patrões de contribuir com menos
2.200 milhões € (-24,2%). E é precisamente a isto que Passos Coelho chama descaradamente
“um contributo equitativo, um esforço de todos para o objetivo comum”. Para além disso, constitui
também uma grande mentira afirmar, como fez Passos Coelho e seus defensores, que a redução
das contribuições patronais para a Segurança Social em 5,75 pontos percentuais vai aumentar a
competitividade das empresas e criar emprego, pois aquela redução de 24,2% (os 5,75 p.p.) nas
contribuições pagas pelos patrões determina uma redução nos custos das empresas que
estimamos entre 1,5% e 2,46% com base num estudo que fizemos com dados de um relatório do
próprio governo (ver nosso estudo 36 de 2011), portanto uma redução sem impacto significativo
que é facilmente anulada por qualquer variação na taxa de câmbio. E as empresas não criam
emprego se não existir clientes com poder de compras a quem possam vender, e as medidas
agora anunciadas pelo 1º ministro vão reduzir ainda mais o poder de compra dos portugueses
Mas a estranha equidade de Passos Coelho não fica por aqui pois, no mesmo discurso, anunciou
também as seguintes medidas: “A subida de 7 pontos percentuais será ainda aplicada aos
funcionários públicos”, ou seja, eles terão de descontar nas remunerações que recebem mais
850 milhões € por ano para a CGA (portanto, os trabalhadores da Função Pública passarão, em
2013, a descontar 18% para a CGA mais 1,5% para a ADSE, o que soma 19,5%). E para além
deste aumento de contribuições para a CGA, o “corte do segundo subsidio é mantido nos
termos já definidos na lei do Orçamento do Estado para 2012, o que significa que, em 2013,
os trabalhadores da Função Pública vão sofrer também um corte direto nas suas remunerações
nominais que estimamos em 540 milhões € só por esta razão. E o aumento dos descontos para a
Segurança Social e CGA, enquanto o PSD e CDS forem governo é para se manter. Segundo
também Passos Coelho, “No caso dos pensionistas e reformados (reformados da Segurança
Social e os aposentados da Função Publica), o corte dos dois subsídios permanecerá em
vigor. A duração da suspensão dos subsídios, tanto no caso dos funcionários, como nos
dos pensionistas e reformados, continuará a ser determinado pelo período de vigência do
Programa de Assistência Económica e Financeira”, ou seja, pelo menos até ao fim de 2014. Só
em 2013, os reformados do setor privado sofrerão um corte nas suas pensões que estimamos em
750 milhões €, e os aposentados da Função Pública terão um corte nas suas pensões que
calculamos em 700 milhões €; portanto, para empregar as palavras de Passo Coelho, governo e
troika estão-se a “lixar” para as decisões do Tribunal Constitucional.
Em relação aos rendimentos da propriedade e do capital que, em 2011, segundo o INE atingiram
mais de 51.961 milhões € (é igual a 78% dos ordenados e salários recebidos por todos os
trabalhadores portugueses), e relativamente a 18.106 milhões € de rendimentos transferidos para
o estrangeiro de aplicações feitas em Portugal por não residentes, que não pagam impostos,
Passos Coelho não anunciou qualquer medida, porque se está também a “lixar” para o Tribunal.
Paul Krugman, Nobel da economia, para explicar este comportamento dos governantes de
pequenos países escreveu estas palavras esclarecedoras que deviam merecer uma atenção
especial por parte dos portugueses já que ajudam a compreender a situação atual: “Se alguns
deles terminar o mandato usufruindo de grande estima por parte do grupo de Davos (fórum
mundial anual constituído pelos representantes dos grandes grupos económicos internacionais e
pelos governantes dos maiores países) há uma infinita série de postos na Comissão Europeia, no
FMI ou em organismos afins para os quais poderá ser elegível mesmo que seja desprezado pelos
seus próprios conterrâneos. Aliás, ser desprezado seria de certa forma uma mais-valia”. E é
sabido que Vitor Gaspar é o pupilo preferido do ministro alemão das Finanças. Para além disso
Krugman também refere o fenómeno que designa por “porta giratória” entre o governo e cargos
bem pagos nos grupos económicos nos seguintes termos: “Esta porta já existe há muito tempo,
mas o salário que se consegue obter se a indústria gostar deles é imensamente maior do que
aquilo que costumava ser, e daí a necessidade de acomodar as pessoas que estão do outro lado."
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Afinal: quem somos nós...
“O membro do Banco Central da Islândia Gylfi Zoega diz que Portugal
deve investigar quem está na origem do elevado endividamento do Estado
e dos bancos.”
"Temos de ir aos incentivos. Quem ganhou com isto? No meu País eu sei
quem puxou os cordelinhos, porque o fizeram e o que fizeram, e
Portugal precisa de fazer o mesmo. De analisar porque alguém teve esse
incentivo, no Governo e nos bancos, para pedirem tanto emprestado e
como se pode solucionar esse problema no futuro", diz o...
deve investigar quem está na origem do elevado endividamento do Estado
e dos bancos.”
"Temos de ir aos incentivos. Quem ganhou com isto? No meu País eu sei
quem puxou os cordelinhos, porque o fizeram e o que fizeram, e
Portugal precisa de fazer o mesmo. De analisar porque alguém teve esse
incentivo, no Governo e nos bancos, para pedirem tanto emprestado e
como se pode solucionar esse problema no futuro", diz o...
domingo, 9 de setembro de 2012
Por Antonio Martins
“José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, Mario Draghi, do BCE, e Angela Merkel, chanceler alemã Novo pacote imposto à Grécia reduz, além do salário mínimo, fins-de-semana e férias. BC quer submeter mais países a choques
As hipóteses de pensadores como Manuel Castells e Ignacio Ramonet, que enxergam recrudescimento da luta de classes na Europa e riscos de retrocesso social profundo, ganharam nova força nos últimos dias. Na terça-feira (4/9), o jornal londrino The Guardian vazou o conteúdo de uma carta-ultimato radical, dirigida pela chamada troika (União Europeia, Banco Central Europeu e FMI) ao governo grego. Enviado às vésperas da viagem de uma “comissão de inspetores” a Atenas, e redigida na forma de um elenco seco de exigências, o documento concentra-se nas relações de trabalho.
Requer mudanças profundas – e inimagináveis, há apenas alguns meses – nas leis que protegem os direitos laborais. Além de livrar as grandes empresas de boa parte das leis trabalhistas, concede-lhes ampla redução de impostos, o que debilitaria ainda mais os serviços públicos. Não se trata, porém, de algo limitado à Grécia. Nesta quinta-feira (6/9), ao anunciar novas ações para evitar um colapso financeiro do euro, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mário Draghi, comunicou que a instituição poderá submeter outros países em dificuldades a semelhantes “medidas de estrita e efetiva condicionalidade”.
A vastidão das propostas exigidas de Atenas levou o site World Socialist a enxergá-las como ”um retrocesso às condições de trabalho que vigoravam nos países capitalistas durante o século 19″. Não parece haver exagero na imagem. A troika exige explicitamente, por exemplo, o fim da jornada de 40 horas – que inspirou a maior parte das lutas sociais a partir de 1860 e foi gradualmente conquistada na virada para o século 20. A carta é clara: cobra “flexibilidade ampliada dos horários de trabalho” e específica: em particular “aumento do número máximo de dias de trabalho, para seis por semana, em todos os sectores”.
Estender a jornada laboral, num país onde toda a economia está deprimida, estimulará os empresários a produzir o mesmo com menos empregados. Sintomaticamente, o ultimato também exige que sejam reduzidos em 50% os prazos de aviso prévio e custos indemnizatórios das demissões. Mas vai adiante. Pede nova compressão do valor nominal do salário mínimo – já achatado em 21% este ano. Chega aos detalhes: reivindica alterar as leis gregas que estabelecem intervalo mínimo entre as jornadas de trabalho. “A ideia é que os empregadores possam convocar os assalariados a qualquer momento, acabando com a estabilidade dos horários de trabalho”, afirma Panagiotis Sotiris, professor da Universidade do Egeu.
Nem as férias serão preservadas, se as pressões da troika forem aceitas. A carta a Atenas propõe autorizar os empregadores a fatiar o período contínuo de descanso remunerado em dias esparsos, concedidos ao longo do ano. Para os patrões, cômodo e barato – porque permite dispensar os assalariados em períodos de baixa atividade, por exemplo. Para os trabalhadores, equivale à obrigação de permanecer disponíveis, em todas as épocas do ano, às tarefas definidas pela empresa.
Muitas das exigências contrariam leis e normas gregas – e talvez fosse difícil propor ao Parlamento uma bateria de decisões impopulares. Por isso, a troika tem uma reivindicação de caráter genérico porém devastador, inclusive por humilhar a soberania nacional. Quer desmantelar o sistema actual de fiscalização do trabalho, retirando completamente sua autonomia e colocando-o sob supervisão direta da União Europeia. Ainda que muitas das leis que impedem a super-exploração dos assalariados sejam mantidas, terão pouca eficácia prática. Os funcionários encarregados de garantir seu cumprimento serão comandados por burocratas comprometidos com o sentido geral das novas ordens.
Na mesma carta em que incentiva o ataque generalizado aos direitos dos trabalhadores, a troika reivindica redução das contribuições das empresas aos sistemas de Saúde e Previdência, além de isentá-las de outros impostos. Segundo The Guardian, o ultimato estabelece prazo curto para as decisões. A União Europeia estaria insatisfeita com a “paralisia” do novo governo conservador grego, eleito em maio e até agora incapaz de impor os cortes de direitos sociais e serviços públicos que lhe foram exigidos.
Agora, as cartas estão na mesa, segundo o jornal britânico. Ou Atenas executa as exigências do ultimato, ou não receberá a segunda parcela (14,6 bilhões de euros) de um “resgate” indispensável para manter até mesmo as despesas essenciais do Estado – como o pagamento dos servidores públicos e dos aposentados. A alternativa seria emitir moeda própria e deixar o euro – com consequências ainda imprevisíveis, tanto para a Grécia quanto para a moeda comum.
Ao que tudo indica, porém, Atenas pode ser apenas a primeira vítima de uma nova fase do ataque aos direitos sociais na Europa: a partir de agora, ainda mais intenso e coordenado que ao longo dos últimos três anos. Na quinta-feira (6/9), após uma bateria de encontros com governantes europeus (em especial com a chanceler alemã, Angela Merkel), o presidente do BCE anunciou finalmente que o banco passará a comprar títulos públicos de países em dificuldades de rolar suas dívidas nos mercados.
A ação do BCE era esperada há muito, por todos. Por meio dela, países que foram obrigados a elevar em muito as taxas de juros oferecidas aos credores (como Espanha e Itália) poderão ter, a partir de agora, certo alívio. Mas Mário Draghi estipulou, também, algo inesperado. As intervenções do banco não serão automáticas, como ocorre com os bancos centrais de todos os países. Para iniciá-las, o BCE exigirá dos governos em dificuldades que peçam formalmente apoio. Ao fazê-lo, deverão comprometer-se a “contrapartidas estritas e efetivas”. A Espanha seria séria candidata a inaugurar a lista. Angela Merkel encontrou-se, também nesta semana, com o primeiro-ministro Mariano Rajoy e teria exigido este novo passo.
Os mercados financeiros comemoraram o anúncio de Draghi. As bolsas de valores subiram acentuadamente hoje, em toda a Europa e em Nova York. Tendo em vista o sentido das medidas que se pretende impor às sociedades, só se pode ver, na celebração, o “recrudescimento da luta de classes” mencionado por Castells e Ramonet.”
As hipóteses de pensadores como Manuel Castells e Ignacio Ramonet, que enxergam recrudescimento da luta de classes na Europa e riscos de retrocesso social profundo, ganharam nova força nos últimos dias. Na terça-feira (4/9), o jornal londrino The Guardian vazou o conteúdo de uma carta-ultimato radical, dirigida pela chamada troika (União Europeia, Banco Central Europeu e FMI) ao governo grego. Enviado às vésperas da viagem de uma “comissão de inspetores” a Atenas, e redigida na forma de um elenco seco de exigências, o documento concentra-se nas relações de trabalho.
Requer mudanças profundas – e inimagináveis, há apenas alguns meses – nas leis que protegem os direitos laborais. Além de livrar as grandes empresas de boa parte das leis trabalhistas, concede-lhes ampla redução de impostos, o que debilitaria ainda mais os serviços públicos. Não se trata, porém, de algo limitado à Grécia. Nesta quinta-feira (6/9), ao anunciar novas ações para evitar um colapso financeiro do euro, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mário Draghi, comunicou que a instituição poderá submeter outros países em dificuldades a semelhantes “medidas de estrita e efetiva condicionalidade”.
A vastidão das propostas exigidas de Atenas levou o site World Socialist a enxergá-las como ”um retrocesso às condições de trabalho que vigoravam nos países capitalistas durante o século 19″. Não parece haver exagero na imagem. A troika exige explicitamente, por exemplo, o fim da jornada de 40 horas – que inspirou a maior parte das lutas sociais a partir de 1860 e foi gradualmente conquistada na virada para o século 20. A carta é clara: cobra “flexibilidade ampliada dos horários de trabalho” e específica: em particular “aumento do número máximo de dias de trabalho, para seis por semana, em todos os sectores”.
Estender a jornada laboral, num país onde toda a economia está deprimida, estimulará os empresários a produzir o mesmo com menos empregados. Sintomaticamente, o ultimato também exige que sejam reduzidos em 50% os prazos de aviso prévio e custos indemnizatórios das demissões. Mas vai adiante. Pede nova compressão do valor nominal do salário mínimo – já achatado em 21% este ano. Chega aos detalhes: reivindica alterar as leis gregas que estabelecem intervalo mínimo entre as jornadas de trabalho. “A ideia é que os empregadores possam convocar os assalariados a qualquer momento, acabando com a estabilidade dos horários de trabalho”, afirma Panagiotis Sotiris, professor da Universidade do Egeu.
Nem as férias serão preservadas, se as pressões da troika forem aceitas. A carta a Atenas propõe autorizar os empregadores a fatiar o período contínuo de descanso remunerado em dias esparsos, concedidos ao longo do ano. Para os patrões, cômodo e barato – porque permite dispensar os assalariados em períodos de baixa atividade, por exemplo. Para os trabalhadores, equivale à obrigação de permanecer disponíveis, em todas as épocas do ano, às tarefas definidas pela empresa.
Muitas das exigências contrariam leis e normas gregas – e talvez fosse difícil propor ao Parlamento uma bateria de decisões impopulares. Por isso, a troika tem uma reivindicação de caráter genérico porém devastador, inclusive por humilhar a soberania nacional. Quer desmantelar o sistema actual de fiscalização do trabalho, retirando completamente sua autonomia e colocando-o sob supervisão direta da União Europeia. Ainda que muitas das leis que impedem a super-exploração dos assalariados sejam mantidas, terão pouca eficácia prática. Os funcionários encarregados de garantir seu cumprimento serão comandados por burocratas comprometidos com o sentido geral das novas ordens.
Na mesma carta em que incentiva o ataque generalizado aos direitos dos trabalhadores, a troika reivindica redução das contribuições das empresas aos sistemas de Saúde e Previdência, além de isentá-las de outros impostos. Segundo The Guardian, o ultimato estabelece prazo curto para as decisões. A União Europeia estaria insatisfeita com a “paralisia” do novo governo conservador grego, eleito em maio e até agora incapaz de impor os cortes de direitos sociais e serviços públicos que lhe foram exigidos.
Agora, as cartas estão na mesa, segundo o jornal britânico. Ou Atenas executa as exigências do ultimato, ou não receberá a segunda parcela (14,6 bilhões de euros) de um “resgate” indispensável para manter até mesmo as despesas essenciais do Estado – como o pagamento dos servidores públicos e dos aposentados. A alternativa seria emitir moeda própria e deixar o euro – com consequências ainda imprevisíveis, tanto para a Grécia quanto para a moeda comum.
Ao que tudo indica, porém, Atenas pode ser apenas a primeira vítima de uma nova fase do ataque aos direitos sociais na Europa: a partir de agora, ainda mais intenso e coordenado que ao longo dos últimos três anos. Na quinta-feira (6/9), após uma bateria de encontros com governantes europeus (em especial com a chanceler alemã, Angela Merkel), o presidente do BCE anunciou finalmente que o banco passará a comprar títulos públicos de países em dificuldades de rolar suas dívidas nos mercados.
A ação do BCE era esperada há muito, por todos. Por meio dela, países que foram obrigados a elevar em muito as taxas de juros oferecidas aos credores (como Espanha e Itália) poderão ter, a partir de agora, certo alívio. Mas Mário Draghi estipulou, também, algo inesperado. As intervenções do banco não serão automáticas, como ocorre com os bancos centrais de todos os países. Para iniciá-las, o BCE exigirá dos governos em dificuldades que peçam formalmente apoio. Ao fazê-lo, deverão comprometer-se a “contrapartidas estritas e efetivas”. A Espanha seria séria candidata a inaugurar a lista. Angela Merkel encontrou-se, também nesta semana, com o primeiro-ministro Mariano Rajoy e teria exigido este novo passo.
Os mercados financeiros comemoraram o anúncio de Draghi. As bolsas de valores subiram acentuadamente hoje, em toda a Europa e em Nova York. Tendo em vista o sentido das medidas que se pretende impor às sociedades, só se pode ver, na celebração, o “recrudescimento da luta de classes” mencionado por Castells e Ramonet.”
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Romper a opressão do poder ocidental
Já é tempo de os EUA cessarem de desempenhar o papel de guia, pensando e tomando decisões para outros países. Como um primeiro passo, os estados membro do Movimento dos Não Alinhados (MNA) deveriam fazer esforços para libertar o Conselho de Segurança da ONU do seu cativeiro servil aos EUA e seus aliados.
Apesar da deliberada desatenção do ocidente e do desprezo para com a Cimeira do Movimento dos Não Alinhados, em Teerão, não se pode negar o facto de que o evento provocou extremo desgosto em Washington e Israel e que o diálogo entre civilizações para alcançar a paz global ainda é uma poderosa factibilidade.
Exactamente na véspera da inauguração da cimeira do MNA, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu manifestou o seu cinismo típico e condenou o comparecimento de representantes de alto nível de mais de 120 países ao evento dizendo que este era "uma mancha sobre a humanidade". A causa da raiva desesperada de Netanyahu é contudo bem perceptível.
A 16ª Cimeira do MNA que foi oficialmente encerrada em Teerão na sexta-feira acabou com uma resolução que incluía mais de 700 cláusulas. A resolução final que foi lida pelo presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad manifestou apoio ao programa de energia nuclear do Irão, rejeitou as sanções unilaterais dos EUA contra a República Islâmica e apelou a maiores esforços para defender a causa palestina e cessar a discriminação racial por todo o mundo.
A cimeira do MNA tratou um certo número de questões espinhosas que o ocidente deturpa, tal como o programa de energia nuclear do Irão, ou menospreza, tal como a questão palestina e os não autorizados ataques com drones dos EUA que ceifaram as vidas de muitos civis no Paquistão, Afeganistão, Somália e Iémen.
Foi uma oportunidade para os participantes que já têm seus países agarrados pelo pescoço manifestarem as suas queixas. O ministro dos Estrangeiros paquistanês, Hina Rabbani Khar, exprimiu a preocupação do seu país para com os ataques ilegais de drones no Paquistão e instou Washington a por um fim imediato à sua máquina da morte no Paquistão.
"A posição do Paquistão é clara hoje e tem sido clara no passada. Nossa posição é que isto é algo contra-producente. É ilegítimo. É ilegal e portanto deve cessar. Foi isto que o parlamento do Paquistão declarou claramente", disse Rabbani Khar na quarta-feira.
Entretanto, central à cimeira foi o vigoroso discurso do Aiatola Seyyen Ali Khamenei , o líder a Revolução Islâmica que reiterou claramente a posição oficial da República Islâmica sobre algumas questões chave, incluindo armas nucleares, e clarificou que o Irão nunca pretendeu produzi-las, nunca avançará num caminho tão horrendo e que a execução, utilização e produção de tais armas é um pecado imperdoável. A sua análise profunda da política paradoxal de Washington merece a devida atenção. Apontando para "uma amarga ironia da nossa era", o Aiatola Khamenei reforçou o facto de que o governo dos EUA "possui a maior e mais mortal acumulação de armas nucleares e outras armas de destruição em massa, e o único país culpado pela sua utilização, está hoje ansioso por conduzir a bandeira de oposição à proliferação nuclear" e que o mesmo regime armou o regime usurpador sionista com armas nucleares e criou uma grande ameaça para esta região sensível".
De facto, Washington e Tel Aviv estão a jogar nas mãos do diabo nos seus esforços para dividir nações e colonizar seus países pela criação de "inimigos globais" e brutalmente mobilizar outros contra eles.
Em relação a isso, a Cimeira MNA pode desempenhar um papel vital desviando o papel destrutivo do governo dos EUA e outras potências ameaçadoras ao avançar com suas agendas globalistas para um papel construtivo sob a égide dos membros do MNA. Reagindo aos efeitos de uma cimeira com significado tão substancial, os media ocidentais censuraram a venda e coibiram-se de relatar os factos, o que de um modo ou de outro mostrou a sua agenda oculta. O blackout dos media no ocidente em relação à Cimeira de Teerão é o equivalente ao blackout da verdade e da fidedignidade, um sinal mórbido que indica claramente que esforços globais para alcançar a paz e a harmonia são afinal de contas empurrados para o abismo do fracasso. A fim de destruir o poderio da máfia dos media, o responsável da Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB), Ezzatollah Zarghami, sugeriu que o Movimento dos Não Alinhados estabelecesse um bloco alternativo de media. Tal iniciativa é na verdade louvável e deve ser considerada um meio eficaz para contrabalançar a cegueira enviesada dos media.
Com plena convicção, pode-se tristemente dizer que há mãos sabotadoras em acção para frustrar os esforços na luta pela paz global à luz de uma liderança unida. O que realmente deveria ser prioridade em futura cimeira do MNA é formular uma abordagem efectiva para resolver a crise global e lutar para conseguir um consenso internacional para reduzir a influência política de Washington e a sua auto-proclamada liderança ditatorial. Já é tempo de os EUA cessarem de desempenhar o papel de guru e de pensarem e tomarem decisões para outros países. Como primeiro passo, os estados membro do MNA deveria fazer esforços para libertar o Conselho de Segurança da ONU do seu cativeiro servil aos EUA e seus aliados.
Uma nova ordem mundial está a tomar forma. Nesta nova ordem mundial, o imperialismo começa a esvair-se e a ideia de crescentes expedições militares sob a bandeira de combater ao terrorismo ou ditar a democracia ocidental em breve evaporar-se-á. Esta ideia pode estar a grande distância da realidade mas não é uma impossibilidade. Ela pode ser transformada em realidade graças ao poder emanado dos esforços colectivos de todas as nações. É exactamente isto que o ocidente conduzido pelos EUA mais teme e o que o mundo mais precisa: uma vontade unida de nações a impor-se claramente face à injustiça e de acordo com o direito.
Apesar da deliberada desatenção do ocidente e do desprezo para com a Cimeira do Movimento dos Não Alinhados, em Teerão, não se pode negar o facto de que o evento provocou extremo desgosto em Washington e Israel e que o diálogo entre civilizações para alcançar a paz global ainda é uma poderosa factibilidade.
Exactamente na véspera da inauguração da cimeira do MNA, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu manifestou o seu cinismo típico e condenou o comparecimento de representantes de alto nível de mais de 120 países ao evento dizendo que este era "uma mancha sobre a humanidade". A causa da raiva desesperada de Netanyahu é contudo bem perceptível.
A 16ª Cimeira do MNA que foi oficialmente encerrada em Teerão na sexta-feira acabou com uma resolução que incluía mais de 700 cláusulas. A resolução final que foi lida pelo presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad manifestou apoio ao programa de energia nuclear do Irão, rejeitou as sanções unilaterais dos EUA contra a República Islâmica e apelou a maiores esforços para defender a causa palestina e cessar a discriminação racial por todo o mundo.
A cimeira do MNA tratou um certo número de questões espinhosas que o ocidente deturpa, tal como o programa de energia nuclear do Irão, ou menospreza, tal como a questão palestina e os não autorizados ataques com drones dos EUA que ceifaram as vidas de muitos civis no Paquistão, Afeganistão, Somália e Iémen.
Foi uma oportunidade para os participantes que já têm seus países agarrados pelo pescoço manifestarem as suas queixas. O ministro dos Estrangeiros paquistanês, Hina Rabbani Khar, exprimiu a preocupação do seu país para com os ataques ilegais de drones no Paquistão e instou Washington a por um fim imediato à sua máquina da morte no Paquistão.
"A posição do Paquistão é clara hoje e tem sido clara no passada. Nossa posição é que isto é algo contra-producente. É ilegítimo. É ilegal e portanto deve cessar. Foi isto que o parlamento do Paquistão declarou claramente", disse Rabbani Khar na quarta-feira.
Entretanto, central à cimeira foi o vigoroso discurso do Aiatola Seyyen Ali Khamenei , o líder a Revolução Islâmica que reiterou claramente a posição oficial da República Islâmica sobre algumas questões chave, incluindo armas nucleares, e clarificou que o Irão nunca pretendeu produzi-las, nunca avançará num caminho tão horrendo e que a execução, utilização e produção de tais armas é um pecado imperdoável. A sua análise profunda da política paradoxal de Washington merece a devida atenção. Apontando para "uma amarga ironia da nossa era", o Aiatola Khamenei reforçou o facto de que o governo dos EUA "possui a maior e mais mortal acumulação de armas nucleares e outras armas de destruição em massa, e o único país culpado pela sua utilização, está hoje ansioso por conduzir a bandeira de oposição à proliferação nuclear" e que o mesmo regime armou o regime usurpador sionista com armas nucleares e criou uma grande ameaça para esta região sensível".
De facto, Washington e Tel Aviv estão a jogar nas mãos do diabo nos seus esforços para dividir nações e colonizar seus países pela criação de "inimigos globais" e brutalmente mobilizar outros contra eles.
Em relação a isso, a Cimeira MNA pode desempenhar um papel vital desviando o papel destrutivo do governo dos EUA e outras potências ameaçadoras ao avançar com suas agendas globalistas para um papel construtivo sob a égide dos membros do MNA. Reagindo aos efeitos de uma cimeira com significado tão substancial, os media ocidentais censuraram a venda e coibiram-se de relatar os factos, o que de um modo ou de outro mostrou a sua agenda oculta. O blackout dos media no ocidente em relação à Cimeira de Teerão é o equivalente ao blackout da verdade e da fidedignidade, um sinal mórbido que indica claramente que esforços globais para alcançar a paz e a harmonia são afinal de contas empurrados para o abismo do fracasso. A fim de destruir o poderio da máfia dos media, o responsável da Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB), Ezzatollah Zarghami, sugeriu que o Movimento dos Não Alinhados estabelecesse um bloco alternativo de media. Tal iniciativa é na verdade louvável e deve ser considerada um meio eficaz para contrabalançar a cegueira enviesada dos media.
Com plena convicção, pode-se tristemente dizer que há mãos sabotadoras em acção para frustrar os esforços na luta pela paz global à luz de uma liderança unida. O que realmente deveria ser prioridade em futura cimeira do MNA é formular uma abordagem efectiva para resolver a crise global e lutar para conseguir um consenso internacional para reduzir a influência política de Washington e a sua auto-proclamada liderança ditatorial. Já é tempo de os EUA cessarem de desempenhar o papel de guru e de pensarem e tomarem decisões para outros países. Como primeiro passo, os estados membro do MNA deveria fazer esforços para libertar o Conselho de Segurança da ONU do seu cativeiro servil aos EUA e seus aliados.
Uma nova ordem mundial está a tomar forma. Nesta nova ordem mundial, o imperialismo começa a esvair-se e a ideia de crescentes expedições militares sob a bandeira de combater ao terrorismo ou ditar a democracia ocidental em breve evaporar-se-á. Esta ideia pode estar a grande distância da realidade mas não é uma impossibilidade. Ela pode ser transformada em realidade graças ao poder emanado dos esforços colectivos de todas as nações. É exactamente isto que o ocidente conduzido pelos EUA mais teme e o que o mundo mais precisa: uma vontade unida de nações a impor-se claramente face à injustiça e de acordo com o direito.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Espero...
“Ministro alemão da Economia e o presidente do Eurogrupo,
Juncker, consideram que a saída da Grécia do euro é "gerível".
Importam-se de repetir? Se a Grécia sair do euro, isso pode bem desencadear um
processo de desintegração do euro
O euro é um projecto insustentável, por duas razões
principais. Em primeiro lugar, porque permitiu a acumulação de desequilíbrios
muito superiores ao que existiriam com moeda própria. A Grécia jamais poderia
acumular as dívidas que hoje tem, a Irlanda jamais assistiria a uma tão grande
expansão do seu sistema bancário, Portugal jamais poderia ter uma dívida
externa de 100% do PIB, Espanha nunca teria embarcado numa tão grande bolha
imobiliária. Mas, mais grave do que permitir desequilíbrios maiores, o euro
deixa os países com menos instrumentos para os corrigir, em particular o
instrumento cambial, o que torna as correcções muitíssimo mais difíceis.
Em segundo lugar, com moeda própria, a variável que sinaliza
os problemas – a taxa de câmbio – ajuda a resolver esses mesmos problemas. No
euro, a variável que serve de alerta – a taxa de juro de longo prazo – agrava
todos os desequilíbrios. Quando percebi este aspecto, nos finais de 2010,
fiquei convencido de que os dias do euro estavam contados.
Há quem imagine que há soluções para os problemas do euro,
mas se há soluções tecnicamente viáveis, elas são politicamente impossíveis.
Dado o melindre de escrever sobre o fim do euro, adiei ao
máximo isso, mas em Dezembro do ano passado comecei a escrever um livro sobre
isso, que deveria estar pronto em Abril. Vicissitudes várias fizeram com que o
projecto se atrasasse e só este mês deverá estar disponível, com o título
"O fim do euro em Portugal?", numa edição da Actual Editora, do Grupo
Almedina.
Apesar do ponto de interrogação no título estou firmemente
convencido, não só de que o euro deixará de ser a moeda em Portugal, como de
que isso ocorrerá até ao final deste ano.
Os problemas estruturais do euro estão lá, mas as
autoridades europeias têm-se esmerado em tornar as coisas ainda piores. Mario
Draghi, tinha-nos pedido para acreditarmos nele, que o BCE tudo faria para
preservar o euro. Afinal o BCE pondera voltar a comprar obrigações dos países
em dificuldades, mas apenas DEPOIS de estes pedirem ajuda, que virá sob fortes
restrições. Então a intervenção do BCE não era para evitar que estes Estados
chegassem ao ponto de ter de pedir auxílio?”
terça-feira, 24 de julho de 2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Em Portugal é pior: A nossa gente viciou-se na TV !!!
“Não é de hoje que vários pensadores sérios estudam o
mecanismo da manipulação da informação do mercado. Um deles, o linguista Noam
Chomsky, relacionou dez estratégias sobre o tema.
Na verdade, Chomsky elaborou um verdadeiro tratado que deve
ser analisado por todos (jornalistas ou não) os interessados no tema tão em
voga nos dias de hoje em função da importância adquirida pelos meios de
comunicação na batalha diária de “fazer cabeças”.
Vale a pena
transcrever o quinto tópico elaborado e que remete tranquilamente a um
telejornal brasileiro de grande audiência e em especial ao apresentador.
O tópico assinala que
o apresentador deve “dirigir-se ao público como criaturas de pouca idade ou
deficientes mentais. A maioria da publicidade dirigida ao grande público
utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente
infantil, muitas vezes próxima da debilidade, como se o espectador fosse uma
pessoa de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar o
espectador, mais se tende a adoptar um tom infantil”.
E prossegue Chomsky
indagando o motivo da estratégia. Ele mesmo responde: “se alguém se dirige a
uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, por razão da sugestão,
ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reacção também
desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos”.
Alguém pode estar
imaginando que Chomsky se inspirou em William Bonner, o apresentador do Jornal
Nacional que utiliza exactamente a mesma estratégia assinalada pelo linguista.
Mas não necessariamente,
até porque em outros países existem figuras como Bonner, que são colocados na
função para fazerem exactamente o que fazem, ajudando a aprofundar o esquema do
pensamento único e da infantilização do telespectador.
De qualquer forma, o que diz Chomsky remete a artigo escrito
há tempos pelo professor Laurindo Leal Filho depois de ter participado de uma
visita, juntamente com outros professores universitários, a uma reunião de
pauta do Jornal Nacional comandada por Bonner.
Laurindo informava então
que na ocasião Bonner dissera que em pesquisa realizada pela TV Globo foi
identificado o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se,
segundo Bonner, que “ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas
e pouca familiaridade com siglas como o BNDES, por exemplo. Na redacção o
personagem foi apelidado de Homer Simpson, um simpático mas obtuso personagem
dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão do
mundo”
E prossegue o artigo
observando que Homer Simpson “é pai de família, adora ficar no sofá, comendo
rosquinhas e bebendo cerveja, é preguiçoso e tem o raciocínio lento”
Para perplexidade dos
professores que visitavam a redacção de jornalismo da TV Globo, Bonner passou
então a se referir da seguinte forma ao vetar esta ou aquela reportagem: “essa
o Hommer não vai entender” e assim sucessivamente.
A tal reunião de pauta do Jornal Nacional aconteceu no final
do ano de 2005. O comentário de Noam Chomsky é talvez mais recente. É possível
que o linguista estadunidense não conheça o informe elaborado por Laurindo Leal
Filho, até porque depois de sete anos caiu no esquecimento. Mas como se trata
de um artigo histórico, que marcou época, é pertinente relembrá-lo.
De lá para cá o
Jornal Nacional praticamente não mudou de estratégia e nem de editor-chefe.
Continua manipulando a informação, como aconteceu recentemente em matéria sobre
o desmatamento na Amazónia, elaborada exactamente para indispor a opinião
pública contra os assentados.
Dizia a matéria que
os assentamentos são responsáveis pelo desmatamento na região Amazónica, mas
simplesmente omitiu o facto segundo o qual o desmatamento não é produzido pelos
assentados e sim por grupos de madeireiros com actuação ilegal.
Bonner certamente
orientou a matéria com o visível objectivo de levar o telespectador a se
colocar contra a reforma agrária, já que, na concepção manipulada da TV Globo,
os assentados violentam o meio ambiente.
Em suma: assim caminha o jornalismo da TV Globo. Quando questionado,
a resposta dos editores é acusar os críticos de defenderem a censura. Um
argumento que não se sustenta.
A propósito, o jornal
O Globo está de marcação cerrada contra o governo de Rafael Correa, do Equador,
acusando-o de restringir a liberdade de imprensa. A matéria mais recente, em
tom crítico, citava como exemplo a não renovação da concessão de algumas
emissoras de rádio que não teriam cumprido determinações do contrato.
As Organizações Globo
e demais mídias filiadas à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP)
raciocinam como se os canais de rádio e de televisão fossem propriedade
particular e não concessões públicas com normas e procedimentos a serem
respeitados.
Em outros termos:
para o patronato associado à SIP quem manda são os proprietários, que podem
fazer o que quiserem e bem entenderem sem obrigações contratuais.
No momento em que o
Estado fiscaliza e cobra procedimentos, os proprietários de veículos electrónicos
de comunicação saem em campo para denunciar o que consideram restrição à
liberdade de imprensa.
Os governos do
Equador, Venezuela, Bolívia e Argentina estão no índex do baronato mediático exactamente
porque cobram obrigações contratuais. Quando emissoras irregulares não têm as
concessões renovadas, a chiadeira do patronato é ampla, geral e irrestrita.
Da mesma forma que O
Globo no Rio de Janeiro, Clarin na Argentina, El Mercurio no Chile e outros
editam matérias com o mesmo teor, como se fossem extraídas de uma mesma matriz mediática.
MÁRIO AUGUSTO JACOBSKIND
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