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terça-feira, 10 de julho de 2012

A ortografia é o rosto das palavras e a poesia é de essência monárquica e litúrgica


No Vazio da Onda


by MCS

«A ortografia é o rosto das palavras. Este rosto já sofreu tantas operações plásticas, mal feitas, que, agora, com a última, a pior e a mais estúpida, quase ficou irreconhecível. Chegou a altura de parar e, nalguns casos, de voltar atrás, sob risco de se perder da vista e do coração o pouco que resta da fisionomia das palavras da língua portuguesa.
Num poema, o aspecto das palavras que o compõem, revela-se tão importante como o seu som. Mesmo quando o poema é escutado e não lido, quem o recita, assinala na dicção, se for bom diseur (dizedor e não declamador), a ortografia e a mancha do seu perfil do lado direito da página. O recitativo torna-se visual, o som torna-se, por assim dizer, visível a duas dimensões, como a pintura do antigo Egipto.
A última reforma ortográfica destina-se aos carneiros, parasitas e usurários, que necessitam, em simultâneo, nas arengas e transacções, do inglês básico americanizado, factor que acelera ainda mais a degradação da língua nacional, até a reduzir a um dialecto tôsco, que caracteriza, sobretudo, a classe baixa dos políticos e dos magarefes ocidentais sem religião.
O poeta, neste contexto, é o único que, orientado numa linha de ortografia tradicional, nem sempre etimológica, e sob a esclarecida influência do critério biológico e estético de Teixeira de Pascoaes, o poeta, dizia, é o único homem livre capaz de criar a sua própria ortografia, indissociável da disposição rítmica e gráfica dos seus poemas.
Quem, em edições futuras dos meus livros, se as houver, depois da minha morte, "actualizar" a minha ortografia pessoal, comete um erro de lesa-majestade e uma blasfémia, porque a poesia é de essência monárquica e litúrgica e, como já disse alguém, reina sozinha ou abdica.»
Ortografia, António Barahona in "Raspar o Fundo da Gaveta e Enfunar uma Gávea", Lisboa, Averno, 2011

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