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domingo, 30 de setembro de 2012

do Partido Politico MRPP - Partilho e copio...


Vive-se hoje em Portugal a ameaça contra-revolucionária mais grave desde o golpe militar de 28 de Maio de 1926.

Actuando a soldo do imperialismo internacional e defendendo interesses que lhe são próprios, a grande burguesia portuguesa está a executar um plano de esmagamento total dos direitos dos trabalhadores e de degradação extrema das condições de vida e de trabalho do povo.

Pretende-se reduzir a remuneração do operário português até ao nível da do operário chinês, colocar toda a população trabalhadora num regime mínimo de subsistência, abreviar o tempo de existência dos idosos e doentes e expulsar do país essa força de futuro que é a juventude trabalhadora e estudantil.

A liquidação de Portugal como país soberano e independente está a concretizar-se rapidamente em cada dia que passa e poderá tornar-se uma realidade dificilmente reversível se não houver uma oposição de massas, democrática e patriótica, que ponha rapidamente cobro a tais planos.

Para tentar vencer a resistência firme e generalizada do povo português à política de traição nacional do governo PSD/CDS e da Tróica germano-imperialista, foram já confiscados todos os direitos e preceitos constitucionais e estão a ser preparadas toda a espécie de medidas de carácter fascista para eliminar a democracia e instituir um regime de ditadura terrorista sobre os trabalhadores e o povo.

A gravidade da situação presente exige o derrube imediato do governo Coelho/Portas. Não pode haver a este respeito qualquer tipo de hesitação por parte dos trabalhadores e das suas organizações e por parte de todos os partidos e forças políticas que se reclamam da democracia e da independência nacional.

A única força que pode derrubar o governo PSD/CDS e expulsar a Tróica imperialista é a força organizada dos operários e trabalhadores portugueses. O meio de luta mais importante e decisivo para alcançar este objectivo é a greve geral nacional que paralise totalmente o país e una firmemente os trabalhadores e os seus aliados.

Na situação presente, a greve geral não é o último mas sim o primeiro meio de luta a que se deve recorrer para derrotar os planos da contra-revolução e impor os direitos dos trabalhadores e dos cidadãos. Todas as formas de luta específicas e sectoriais devem ser feitas confluir para este objectivo.

É preciso fazer todas as greves gerais que forem necessárias até o governo ser derrubado. Neste movimento é preciso estabelecer uma aliança indestrutível entre os operários, os trabalhadores dos serviços, os pequenos e médios empresários esmagados pela crise, os estudantes, os pensionistas e idosos e todos os sectores democráticos e patrióticos.

A condição fundamental para conduzir o presente combate político à vitória é a existência de um programa de governo que substitua o actual, que retire o país da crise e que suscite o apoio da grande maioria do povo português.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

até nisso, somos fracos!


O sonho de Pedro Passos Coelho


 

“Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em matá-los, mas a verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles, acabam por nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se quiséssemos matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há gente muito piegas, que não percebe que as decisões duras são para tomar, custe o que custar, e que, se nos livrarmos de um terço, os outros vão ficar melhor. É por isso que nós não os vamos matar. Eles é que vão morrendo. Basta que a mortalidade aumente um bocadinho mais que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram isso. O Mota Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que costumam dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles lá sabem. Por isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra isso e o que é importante é a tendência. Como eles adoecem mais, é só ir dificultando cada vez mais o acesso aos tratamentos. A natureza faz o resto. O Paulo Macedo também faz o que pode. Não é genocídio, é estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante é que estamos no caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é preciso fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e não contribuem com nada, que não têm deveres.

 Estas tretas da democracia e da educação e da saúde para todos foram inventados quando a sociedade precisava de milhões e milhões de pobres para espalhar estrume e coisas assim. Agora já não precisamos e há cretinos que ainda não perceberam que, para nós vivermos bem, é preciso podar estes sub-humanos.

 Que há um terço que tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de ser o terço certo, os que gastam os nossos recursos todos e que não contribuem. Tem de haver equidade. Se gastam e não contribuem, tenho muita pena... os recursos são escassos. Ainda no outro dia os jornais diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é que os analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto são: os analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E temos de promover a justiça social.

 O outro terço temos de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de alguns operários e assim, mas esta pouca vergonha de pensarem que mandam no país só porque votam tem de acabar. Para começar, o país não é competitivo com as pessoas a viverem todas decentemente. Não digo voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode falar - mas a verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura. Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir o progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também precisam. A chatice de não podermos eliminar os operários como aos sub-humanos é que precisamos destes gajos para fazer algumas coisas chatas e, para mais (por enquanto) votam - ainda que a maioria deles ou não vote ou vote em nós. O que é preciso é acabar com esses direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem o mínimo e vivam à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os comunistas dizem que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que percebam quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo de ficar sem trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no meio da rua. E enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para os anestesiar e para pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de hip-hop e assim.

 O outro terço são profissionais e técnicos, que produzem serviços essenciais, médicos e engenheiros, mas estes estão no papo. Já os convencemos de que combater a desigualdade não é sustentável (tenho de mandar uma caixa de charutos ao Lobo Xavier), que para eles poderem viver com conforto não há outra alternativa que não seja liquidar os ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para pagar a saúde deles não podemos pagar a saúde dos pobres.

 Com um terço da população exterminada, um terço anestesiado e um terço comprado, o país pode voltar a ser estável e viável. A verdade é que a pegada ecológica da sociedade actual não é sustentável. E se não fosse assim não poderíamos garantir o nível de luxo crescente da classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou ficar em Massamá a vida toda. O Ângelo diz que, se continuarmos a portar-nos bem, um dia nós também vamos poder pertencer à elite.”

 ( José Vítor Malheiros)

 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

“Acta de Havana”


“18 de Julho de 1985

 

 

Fonte: Plaqueta: Prestes - Dívida Externa e a Paz.

Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, julho 2006.

Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive, 2006. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

 

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Na cidade de Havana, de 15 a 18 de julho de 1985, reuniu-se a Conferência Sindical dos Trabalhadores da América Latina e do Caribe sobre a Dívida Externa.

 

Esta Conferência contou com a presença de dirigentes de 46 Centrais ou Confederações Sindicais Nacionais, 135 Organismos Sindicais Profissionais ou Territoriais, 16 Organizações Camponesas, assim como 8 Organizações e Organismos Regionais e Internacionais. Em total, participaram da Conferência 330 sindicalistas, pertencentes a 197 Organizações e procedentes de 29 países da América Latina e do Caribe.

 

O critério de que esta Conferência constituiu a reunião mais ampla, unitária e representativa já realizada pelo movimento sindical organizado da América Latina e do Caribe, foi unânime.

 

Da mesma forma os dirigentes sindicais e camponeses presentes sublinharam o caráter oportuno e necessário desta reunião, que teve lugar em um momento crucial para a independência política e econômica e para o futuro dos povos da região.

 

Os participantes se referiram à extrema gravidade da crise econômica atual, cujo aguçamento atinge a América Latina e o Caribe e coloca os países da área numa situação ainda pior que a experimentada durante a época da chamada Grande Depressão dos anos 30. O Produto Interno Bruto, referente à América Latina, cresceu apenas 1,7% em 1981, baixou em termos absolutos em 1982 e 1983 aos níveis de –1% e 3% respectivamente e cresceu um débil e insuficiente 2,6% em 1984. Isto significou que, em termos de Produto Interno Bruto por habitante, a América Latina e o Caribe baixaram aos níveis que tinham há uns 10 anos atrás.

 

Numerosos participantes deram ênfase à trágica situação econômica e social que sofrem os povos latino-americanos, esmagados pela crise, principalmente os trabalhadores da cidade e do campo, vítimas do desemprego, da deterioração dos níveis de vida e do aumento alarmante da pobreza extrema e fizeram referência às mudanças estruturais internas que a solução definitiva destes problemas requer.

 

Sobre isso se destacou que na América Latina e no Caribe existem uns 56 milhões de desempregados totais e uns 110 milhões de desempregados, se se considera o sub-emprego. Não menos de 40% da população latino-americana vive nos limites inferiores da pobreza absoluta e 30% abaixo desses limites.

 

A totalidade dos participantes destacou que a dívida externa é a manifestação mais dramática da actual crise, assim como o factor mais importante, que não apenas tende a aprofundá-la, mas também impede a recuperação económica, bloqueia toda a possibilidade de desenvolvimento, submete os nossos povos e, especialmente os trabalhadores, a insuportáveis políticas restritivas dos seus níveis de vida, comprometendo a nossa soberania ao aprofundar a dependência em relação aos bancos credores, ao FMI e aos governos dos países industrializados que controlam as decisões desse organismo.

 

Os participantes analisaram os elementos mais importantes do processo de rápido endividamento latino-americano e as causas que o explicam. Assinalaram que essas causas se encontram nos princípios de funcionamento da actual e injusta ordem económica internacional, especialmente ao intercâmbio desigual que nos obriga a vender cada vez mais barato e comprar cada vez mais caro, o que somente em 1984 representou perdas em uns 20 milhões de dólares; o proteccionismo e a prática do "dumping", baseados na egoísta política de subsídios a produtos que não poderiam concorrer nos mercados e contradizem as hipócritas adesões retóricas ao livre comércio, que frequentemente fazem os Governos dos Estados Unidos e da Comunidade Económica Europeia. Os efeitos combinados das altas taxas de juros e da supervalorização do dólar, que representaram um custo adicional de 45 milhões de dólares anuais para as economias da região, ao aumentarem os pagamentos por juros, provocam o crescimento da fuga de capitais — que atinge no mesmo período a mais de 10 bilhões de dólares — o custo das amortizações em dólares e agravam a inflação.

 

Os participantes destacaram também a irresponsabilidade dos bancos credores que, na competição para colocar os seus capitais em forma de empréstimos, passaram por cima das normas de segurança bancária e induziram os países da região, a contraírem dívidas para sustentar os enormes lucros que ditos bancos obtiveram e continuam obtendo.

 

Houve também unanimidade quanto à condenação à política e aos princípios de actuação do FMI, instituição que reflecte os interesses dos bancos credores e dos governos que o criaram e o controlam. O FMI, com o seu rígido enfoque monetarista, que apenas atende ao comportamento das variáveis monetárias e do equilíbrio fiscal, enquanto mostra total indiferença pelas duras realidades sociais da América Latina e do Caribe — o desemprego e o empobrecimento dos trabalhadores — está desempenhando um funesto papel. Demonstrou ser o gendarme que cuida dos benefícios dos bancos e a instituição que tem a missão de fazer, não apenas a supervisão, mas também a repressão económica sobre os países latino-americanos.

 

Os participantes chegaram ao acordo de qualificar como falsas soluções do problema da dívida, as contínuas renegociações que, a um alto custo e sob as ignominiosas condições impostas pelo FMI, só servem para prolongar a agonia e reforçar a dependência e a submissão dos nossos países.

 

A crise da dívida, é como uma corda apertada no pescoço, asfixiando os povos e os trabalhadores latino-americanos e caienenses. Apertá-la mais equivale à morte. A única alternativa é encarar com firmeza, dignidade, unidade e solidariedade, este desafio que enfrentamos.

 

A grande maioria dos participantes pronunciou-se pela anulação da dívida externa. Outros sindicalistas apresentaram variantes de moratória, suspensão imediata dos pagamentos ou adiamento por um determinado número de anos, inclusive os juros. Não obstante todos coincidiram na impossibilidade do seu pagamento.

Esta solução exposta é actualmente condição indispensável para iniciar a recuperação económica e dos níveis de emprego, de educação, de saúde e de previdência social na América Latina e no Caribe, inclusive para aspirar a exercer uma verdadeira soberania sobre o nosso destino político e o nosso destino económico, a partir da eliminação desse instrumento de dependência e coerção externas. Os participantes também chamaram a atenção de a anulação, a moratória, a suspensão imediata dos pagamentos, ou o adiamento, por um determinado número de anos, da dívida e dos juros, é indispensável para a sobrevivência dos processos democráticos na região, e expressaram que, se pretendessem continuar cobrando a qualquer preço esta dívida, haveria explosões sociais generalizadas em consequência da insuportável situação a que foram levados os trabalhadores e as massas populares.

 Alguns povos da região, com a sua heróica resistência ante as imposições do FMI, já demonstraram dramaticamente o esgotamento destes limites.

 Houve também ampla coincidência sobre a necessidade de ligar, indissoluvelmente, a solução apresentada para o problema da dívida externa, com o estabelecimento da Nova Ordem Econômica Internacional, cujos princípios foram aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1974. Os participantes afirmaram que, se não forem eliminados fenómenos de efeitos tão negativos para a América Latina e o Caribe, como o intercâmbio desigual, a injusta prática do proteccionismo que afecta os nossos países, a acção descontrolada das empresas multinacionais, as manipulações monetárias e financeiras, que estabelecem altas taxas de juros e propiciam a supervalorização do dólar, entre outros, em prazo não muito longo se esgotaria o alívio resultante em curto prazo e voltaríamos a estar em similar ou em pior situação que a actual.

 Igualmente, grande maioria apoiou a ideia sobre o imprescindível exercício da mais firme e solidária unidade latino-americana, para que, junto às acções ante a dívida externa e a luta pelo estabelecimento de uma Nova Ordem Económica Internacional, avancemos resolutamente para a integração económica regional e a utilizemos como um poderoso meio para o desenvolvimento económico, o fortalecimento da capacidade de negociação e a elevação do nível de vida dos trabalhadores e de todos os nossos povos.

 Relacionado com o anterior, a Conferência resolveu que os sindicalistas que nela participaram, dirijam-se às respectivas organizações, a que pertencem, e lhes proponham mobilizar os trabalhadores e fazer suas estas três bandeiras de luta:

 •Pela anulação, pela moratória, pela suspensão imediata dos pagamentos, ou adiamento indefinido da dívida externa, inclusive os juros!

•Pelo estabelecimento da Nova Ordem Económica Internacional!

•Pela unidade latino-americana e caribense! Pelo avanço em direcção a formas de integração económica da América Latina e do Caribe, a serviço do desenvolvimento e da independência dos nossos países!

Os dirigentes sindicais presentes coincidiram também, plenamente, em assinalar que, para realizar estes objectivos e ante a gravidade da crise, que sofrem da mesma maneira, todos os trabalhadores e povos da região, é indispensável que as distintas tendências e correntes do movimento sindical, continuem trabalhando para encontrar uma ampla base de acordo, de carácter prático, que nos permita uma contribuição cada vez mais efectiva, para a luta pelos direitos dos nossos filiados e dos nossos países, sem menosprezar nossas respectivas posições e como expressão do sentido de responsabilidade histórica e do espírito latino-americanista e caribense que a todos nos impulsiona.

 Os participantes da Conferência destacaram também que a carreira armamentista e as políticas de ingerência e agressão aguçam a crise económica, repercutem negativamente sobre a dívida externa e diminuem os recursos necessários ao desenvolvimento. Portanto, sublinharam que a luta pela diminuição das despesas militares está indissoluvelmente ligada à luta pela paz e pelo desenvolvimento dos nossos povos.

 Chegaram ao acordo unânime, de que esta reunião fez uma histórica contribuição para esse objectivo, ao propiciar um diálogo exemplarmente democrático, respeitoso e num plano de absoluta igualdade de todas as correntes do sindicalismo continental, em que cada dirigente pôde expor os critérios do movimento sindical do seu país, da sua organização, ou suas próprias opiniões, pessoais, segundo o caso, num ambiente de plena liberdade.

 A Central de Trabalhadores de Cuba, como organização responsabilizada com a preparação da reunião, sublinhou, desde o primeiro momento, que não se pretendia que esta Conferência conduzisse a acordos de carácter resolutivo. Apesar disso, durante a reunião se manifestou um amplo consenso entre os sindicalistas participantes, no sentido de adoptar recomendações de acção e levá-las à consideração das diferentes organizações a que pertencem os dirigentes sindicais reunidos em Havana.

 As proposições acordadas, que recolhem o sentir da imensa maioria dos participantes, são as seguintes:

 1.Propor ao movimento sindical organizado que exija dos governos dos seus respectivos países a adopção de medidas que conduzam à anulação, à moratória ou ao adiamento por um determinado número de anos, do pagamento da dívida externa, e à solidariedade com os outros países da América Latina e do Caribe que assumam esta mesma posição.

2.Sugerir às organizações operárias que, de acordo com as condições concretas de cada país, promovam a incorporação dos governos a uma frente unida de países devedores da América Latina e do Caribe, que possa servir como interlocutora ante os bancos privados, dos organismos financeiros internacionais e dos governos dos países industrializados credores.

3.Recomendar que os dirigentes sindicais e camponeses participantes do encontro proponham às organizações a que pertencem, continuar com a análise do problema da dívida externa com a mais ampla participação possível, a fim de tentar chegar a um critério comum sobre as suas causas, as suas repercussões e a estratégia de luta que se deve seguir em cada país, ante esta situação.

4.Levar às organizações sindicais e camponesas a sugestão de que na luta pela solução do problema da dívida liguem-se estreitamente a outras forças sociais e às suas correspondentes organizações, tais como os estudantes e jovens, intelectuais, empresários, sectores religiosos, femininos, moradores, organismos de defesa dos direitos humanos e instituições de profissionais.

5.Fazer chegar os resultados da Conferência aos chefes de estado ou de governo dos países da América Latina e do Caribe, à Organização das Nações Unidas e aos organismos económicos globais e regionais que fazem parte do seu sistema, ao SELA, aos governos e às instituições financeiras oficiais e privadas dos países credores, e a todas aquelas personalidades e organizações que considerem oportuno.

6.Efetuar a mais ampla divulgação dos resultados da Conferência entre os trabalhadores e povos respectivos, assim como a informação disponível sobre a crise económica que suportam os países da nossa região, e suas principais manifestações, em primeiro lugar a dívida externa.

7.Apoiar as próximas acções unitárias do movimento sindical latino-americano e caribense, que poderiam incluir a criação dos mecanismos de coordenação propostos com vigor, nesta Conferência, pela maioria dos participantes, afim de impulsionar em direcção a objectivos superiores, a luta dos trabalhadores organizados do continente, ante os problemas que coloca a dívida externa.

8.Convocar todos os trabalhadores e todas as organizações sindicais da América Latina e do Caribe para a realização no próximo 23 de Outubro de um dia de acção continental contra a dívida externa e seus catastróficos efeitos sobre a vida económica e social dos nossos países.

9.Dar apoio a todas as convocações regionais ou sub-regionais sobre o tema da dívida externa como, por exemplo, a Conferência Sindical convocada pelas centrais sindicais do Cone Sul, que se realizará em fins deste ano; assim como a celebração da próxima Conferência Sindical dos Trabalhadores da América Latina e do Caribe, que vai ser realizada na Bolívia, convocada pela Centrai Operária Boliviana, afim de dar continuidade a este esforço e patentear, ao mesmo tempo, a solidariedade com os trabalhadores desse país irmão, país que é um dos que com maior rigor sofrem actualmente as consequências destrutivas da crise económica e da dívida externa.

10.Os participantes da Conferência, inspirados na herança histórica inscrita nos livros sagrados dos Maias: "Que todos se levantem, que se chame a todos, que não haja nem um nem dois entre nós, que fique atrás", reiteram, finalmente, o compromisso de lutar:

PRIMEIRO: PELA ANULAÇÃO, PELA MORATÓRIA, PELA SUSPENSÃO IMEDIATA DOS PAGAMENTOS OU ADIAMENTO INDEFINIDO DA DÍVIDA EXTERNA, INCLUSIVE OS JUROS!

 SEGUNDO: PELO ESTABELECIMENTO DA NOVA ORDEM ECONÔMICA INTERNACIONAL!

 TERCEIRO: PELA UNIDADE LATINO-AMERICANA E CARIBENSE! PELO AVANÇO EM DIREÇÃO A FORMAS DE INTEGRAÇÃO ECONÔMICA DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE, AO SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO E DA INDEPENDÊNCIA DOS NOSSOS PAÍSES!

 E para deixar constância da presente, subscrevem todos os participantes aos 18 dias do mês de Julho de 1985.”

 

 

 

sábado, 22 de setembro de 2012

darwinismo social

O darwinismo social anda de novo por aí. Nos discursos oficiais, no programa dos governos, nas políticas europeias, na cabeça de intelectuais e comentadores. Resume-se numa ideia simples. Só os mais fortes sobreviverão aos desafios do tempo presente. Os fracos serão varridos.

O darwinismo social surgiu em finais do século 19 aplicando algumas ideias de Darwin à sociedade humana. Darwin não teve culpa, nem voz na matéria. Mas a sua teoria da seleção natural que favorece os mais aptos e mais fortes, eliminando os inadaptados e fracos, serviu bastante bem aos defensores daquilo a que agora chamamos neoliberalismo e, no extremo, conduziu, entre outras coisas, ao fascismo, às raças superiores e ao extermínio dos judeus, ciganos e outros grupos considerados decadentes pelos nazis.


Fora de moda por algum tempo, o darwinismo social tem vindo a ganhar terreno nos últimos anos pelo efeito conjugado do forte stress ambiental provocado pela emergência das novas tecnologias e pela sobrevalorização do chamado mercado livre (que, diga-se de passagem, de livre não tem nada). A revolução tecnológica em curso tem levado a fenómenos de inadaptação em massa, enquanto a desregulação dos mercados tem provocado sucessivas crises financeiras e políticas e cavado um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Neste contexto, vai emergindo um conjunto de ideias e práticas que sobrevalorizam a competição, a lei do mais forte, os nacionalismos, a arrogância, as segregações de toda a a espécie.

É assim que hoje usamos palavras que nos parecem ajustadas mas que, vistas de perto, derivam da visão do darwinismo social. Competitividade, por exemplo, uma das mais vulgarizadas, reproduz o mecanismo da seleção natural, no qual só os que são muito competitivos conseguem vencer. Os outros, sejam eles pessoas ou países e a quem falta o "killer instinct", condenam-se ao ostracismo e à extinção.

Também as políticas de austeridade em curso têm tudo a ver com o darwinismo social. Trata-se de uma brusca alteração no meio ambiente, provocada expressamente pelos governos, como forma de eliminar os mais fracos e favorecer os mais fortes. A este propósito, basta atender às palavras de Passos Coelho com os seus conselhos para os jovens emigrarem ou quando afirma que o desemprego é uma oportunidade, ou seja, adaptem-se ou perecerão. Ou melhor ainda, ouvir os atuais governantes alemães. Neste caso, não estamos longe de uma espécie de eugenismo social e cultural, sendo que nós, portugueses, gregos, espanhóis e outras minorias preguiçosas e decadentes temos de mudar ou seremos extintos. Como diz um amigo, no panorama atual ou nos tornamos alemães ou morremos.

O darwinismo social conseguiu generalizar a ideia de que só se cria qualquer coisa de novo e inovador, ou se tem sucesso na vida, por meio de um comportamento ferozmente competitivo. Esquece outras componentes fundamentais da criatividade, desde logo a cooperação, a combinação ou a sinergia, sobrevalorizando a disputa brutal e selvagem, aliás, a mesma que impera hoje nos mercados financeiros com o resultado que se conhece.

Mas esquece outra coisa. A humanidade inventou algo que não existe nos genes nem nos processos evolutivos naturais. Chama-se cultura. E esta tem uma lógica divergente da mera competição entre fracos e fortes, predadores e presas. A cultura leva os humanos a fazerem coisas que vão contra a genética. Por exemplo, a ética, o altruísmo, a solidariedade. A cultura cria um quadro de comportamento moral e civilizacional que não tem paralelo na seleção natural. E gera também sentimentos de injustiça e de revolta como forma de resistir à brutalidade da competição.

Atraente para alguns, porque estimula comportamentos agressivos e apresenta como tolerável o intolerável, o darwinismo social representa, na verdade, um retrocesso na própria evolução civilizacional da espécie humana. Afinal vivemos para a competição feroz ou para a felicidade? Existimos para exterminar os outros ou para melhorar a condição de todos?
Leonel Moura

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O MEDO


O medo ensopa o país

"O medo ensopa o país. Dissemina-se de mansinho por todo o lado como a peste. Penetra nas escolas, nas famílias. E nas repartições, esquadras, quartéis, empresas, mercados, câmaras, tribunais. Não há quarentena que o valha.

O medo espalha o medo. Nos infantários, escolas primárias, escolas de 2º e 3º ciclo, escolas secundárias, universidades. O medo manda dezenas de milhar de professores para casa com medo. E os que estão na escola a medo ficam. Foçam em papelada transidos de medo. Na aula frente aos alunos sorriem a medo. Os alunos vêem o baço brilho do medo nos olhos docentes. Os alunos brincam, estudam, distraem-se. Mas pressentem a ameaça. O medo já vive dentro deles.

O medo mandou transformar novas oportunidades em velhíssimas inoportunidades. Mascara com as defuntas novas oportunidades a diminuição de alunos para justificar o despedimento de professores. O medo manda atulhar os alunos em contentores que fazem lembrar as salas de aula do passado recente. O medo manda milhares de alunos para a rua da universidade porque não podem pagar as propinas e passam fome. E têm medo porque lhes estão a saquear o futuro.

O medo de hoje nasceu na rua de S. Caetano à Lapa e no Largo do Caldas de forma legítima directamente vertido das urnas abertas. O medo mentiu sem vergonha para entrar com pompa no Palácio de S. Bento. Subiu decidido à rua Gomes Teixeira. Propagou-se pelo Terreiro do Paço. Chegou ao Palácio Ratton e ao Palácio de Belém.O medo faz medo com o medo que tem do FMI, do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia.

E agora o medo tem medo da rua. Encapsula-se com medo a sete chaves em recintos fechados por muros de polícias. No Aquashow, em Quarteira, no fim das férias. Na fortaleza da Gomes Teixeira.

O medo tem medo de ir à RTP explicar-se a medo. Medo dos trabalhadores e da populaça que possa vociferar na Gomes da Costa. O medo chama a parafernália de carros de exteriores, parabólicas, técnicos, para uma transmissão televisiva em directo do seu bunker. O medo por ter medo não tem pudor em esbanjar assim dinheiros públicos.

O medo manda um ministro de Estado, agora silencioso e outrora palavroso e que não admitia mais austeridade, cancelar à última hora a sua presença na homenagem a um antigo presidente do Brasil, apesar de lá ter regressado há pouco de um passeio oficial. E manda o inefável desmemoriado ministro da 5 de Outubro substitui-lo.

E o medo tem medo de apear a segunda figura do governo que comprou um canudo nos salvados da feira da ladra em que uma universidade por onde passou furtivo se transformou.

O medo atingiu quem pode porque amanhã tem medo de não poder. O medo finge não ter medo de espoliar reformados e trabalhadores por conta de outrem para meter no bolso da administração de empresas grandes o dinheiro que será seu e que fará dele tudo o que entender menos criar emprego porque as pessoas com medo fazem dieta espartana e não consomem mais do que aconchegos de estômago.

As pequenas empresas agonizam e fecham as portas. E a calçada frente ao Instituto de Emprego peja-se de gente que a medo vai mendigar ao Estado o subsídio que tarde e a medo chega.

O medo manda para a emigração gente qualificada com medo e necessidade de sobreviver, como outrora mandava muito querido jovem compatriota dar o salto para um qualquer bidonville de Paris a preencher o buraco na barriga ou para fugir dos buracos que as balas, minas e armadilhas em África podiam abrir nos camuflados.

O medo finge não ter medo da raiva em que o medo se pode metamorfosear. Em palavras obscenas de angústia, em bandeiras negras de cólera, em ovos que falham o alvo. Ou, esperemos que nunca, em balas como as que mataram o penúltimo rei ou o quarto presidente da República, o ditador Sidónio.

O medo pode levar a perder o medo. E o medo perdido incendeia cabeças perdidas. E as cabeças perdidas, em solitário ou em bandos radicais, metem mesmo muito medo."
José Alberto Quaresma







sábado, 15 de setembro de 2012

"Claro, o capital não pode resolver sua crise."


"Como o senhor vê a luta de classes hoje e os movimentos de protesto que falam em transformação através da ideia de que somos “os 99%”? Há dois tipos de possibilidades sendo debatidas. Uma seria manter o capitalismo através de mecanismos de retenção e regulação, o que poderia causar flutuações, mas não grandes fracturas. Seria uma forma de reorquestrar o capitalismo para que não causasse tantos danos como hoje, para promover mais igualdade, alguma distribuição de riqueza e sustentabilidade ambiental, como muitos na esquerda defendem. Outras pessoas dizem que não há saída no modo de produção capitalista e que é necessário buscar outras alternativas, com mudanças estruturais políticas e económicas. É claro que as crises podem ocorrer em qualquer sistema, já que não é possível imaginar uma sociedade onde tudo funcionaria perfeitamente. Mas em um sistema não-capitalista as crises seriam de outro tipo. Acho que estamos nessa encruzilhada histórica, onde não temos muita segurança do que seria possível. Então surge o debate sobre reforma ou revolução. Eu acredito que há reformas que levam à revolução. As economias se tornaram tão interdependentes que uma proposta de revolução imediata poderia gerar catástrofes com muitas mortes. Então a questão seria avaliar que tipo de reformas teria um carácter revolucionário e levaria a outro sistema que abolisse a relação de classe, já que a essência do capitalismo é a relação entre capital e trabalho. Portanto, um projecto anticapitalista teria de erradicar a relação de classe. Há diversos movimentos pensando nessa direcção como, por exemplo, as cooperativas de trabalhadores que recuperaram fábricas, mas alguns acabam reproduzindo um sistema de exploração capitalista, no qual os trabalhadores são seus próprios patrões. Portanto, não é suficiente pensarmos em termos de microeconomia, é necessário repensar a macroeconomia."    
David Harvey

 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

MEDIDAS ANUNCIADAS POR PASSOS COELHO PARA 2013 AGRAVAM AINDA MAIS AS

 "Trabalhadores e pensionistas sofrem um corte de 5.540 milhões € nos seus rendimentos, patrões recebem

um bónus de 2.200 milhões €

RESUMO DESTE ESTUDO

Passos Coelho no discurso que fez perante as câmaras da TV, em 7.9.2013, de apresentação das

novas medidas de austeridade para 2013 afirmou o seguinte: “ O que propomos é um contributo

equitativo, um esforço de todos para o objetivo comum, como exige o Tribunal

Constitucional … Foi com este propósito que o governo decidiu aumentar a contribuição

(dos trabalhadores) para a Segurança Social (de 11%) para 18%, o que nos permitirá, em

contrapartida descer a contribuição exigida às empresas (ou seja, aos patrões) também (de

23,75%) para 18%” Isto significa que os trabalhadores do setor privado terão de contribuir para a

Segurança Social com mais 2.700 milhões € (+63,6%), e os patrões de contribuir com menos

2.200 milhões € (-24,2%). E é precisamente a isto que Passos Coelho chama descaradamente

“um contributo equitativo, um esforço de todos para o objetivo comum”. Para além disso, constitui

também uma grande mentira afirmar, como fez Passos Coelho e seus defensores, que a redução

das contribuições patronais para a Segurança Social em 5,75 pontos percentuais vai aumentar a

competitividade das empresas e criar emprego, pois aquela redução de 24,2% (os 5,75 p.p.) nas

contribuições pagas pelos patrões determina uma redução nos custos das empresas que

estimamos entre 1,5% e 2,46% com base num estudo que fizemos com dados de um relatório do

próprio governo (ver nosso estudo 36 de 2011), portanto uma redução sem impacto significativo

que é facilmente anulada por qualquer variação na taxa de câmbio. E as empresas não criam

emprego se não existir clientes com poder de compras a quem possam vender, e as medidas

agora anunciadas pelo 1º ministro vão reduzir ainda mais o poder de compra dos portugueses

Mas a estranha equidade de Passos Coelho não fica por aqui pois, no mesmo discurso, anunciou

também as seguintes medidas: “A subida de 7 pontos percentuais será ainda aplicada aos

funcionários públicos”, ou seja, eles terão de descontar nas remunerações que recebem mais

850 milhões € por ano para a CGA (portanto, os trabalhadores da Função Pública passarão, em

2013, a descontar 18% para a CGA mais 1,5% para a ADSE, o que soma 19,5%). E para além

deste aumento de contribuições para a CGA, o “corte do segundo subsidio é mantido nos

termos já definidos na lei do Orçamento do Estado para 2012, o que significa que, em 2013,

os trabalhadores da Função Pública vão sofrer também um corte direto nas suas remunerações

nominais que estimamos em 540 milhões € só por esta razão. E o aumento dos descontos para a

Segurança Social e CGA, enquanto o PSD e CDS forem governo é para se manter. Segundo

também Passos Coelho, “No caso dos pensionistas e reformados (reformados da Segurança

Social e os aposentados da Função Publica), o corte dos dois subsídios permanecerá em

vigor. A duração da suspensão dos subsídios, tanto no caso dos funcionários, como nos

dos pensionistas e reformados, continuará a ser determinado pelo período de vigência do

Programa de Assistência Económica e Financeira”, ou seja, pelo menos até ao fim de 2014. Só

em 2013, os reformados do setor privado sofrerão um corte nas suas pensões que estimamos em

750 milhões €, e os aposentados da Função Pública terão um corte nas suas pensões que

calculamos em 700 milhões €; portanto, para empregar as palavras de Passo Coelho, governo e

troika estão-se a “lixar” para as decisões do Tribunal Constitucional.

Em relação aos rendimentos da propriedade e do capital que, em 2011, segundo o INE atingiram

mais de 51.961 milhões € (é igual a 78% dos ordenados e salários recebidos por todos os

trabalhadores portugueses), e relativamente a 18.106 milhões € de rendimentos transferidos para

o estrangeiro de aplicações feitas em Portugal por não residentes, que não pagam impostos,

Passos Coelho não anunciou qualquer medida, porque se está também a “lixar” para o Tribunal.

Paul Krugman, Nobel da economia, para explicar este comportamento dos governantes de

pequenos países escreveu estas palavras esclarecedoras que deviam merecer uma atenção

especial por parte dos portugueses já que ajudam a compreender a situação atual: “Se alguns

deles terminar o mandato usufruindo de grande estima por parte do grupo de Davos (fórum

mundial anual constituído pelos representantes dos grandes grupos económicos internacionais e

pelos governantes dos maiores países) há uma infinita série de postos na Comissão Europeia, no

FMI ou em organismos afins para os quais poderá ser elegível mesmo que seja desprezado pelos

seus próprios conterrâneos. Aliás, ser desprezado seria de certa forma uma mais-valia”. E é

sabido que Vitor Gaspar é o pupilo preferido do ministro alemão das Finanças. Para além disso

Krugman também refere o fenómeno que designa por “porta giratória” entre o governo e cargos

bem pagos nos grupos económicos nos seguintes termos: “Esta porta já existe há muito tempo,

mas o salário que se consegue obter se a indústria gostar deles é imensamente maior do que

aquilo que costumava ser, e daí a necessidade de acomodar as pessoas que estão do outro lado."







segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Afinal: quem somos nós...

“O membro do Banco Central da Islândia Gylfi Zoega diz que Portugal


deve investigar quem está na origem do elevado endividamento do Estado

e dos bancos.”



"Temos de ir aos incentivos. Quem ganhou com isto? No meu País eu sei

quem puxou os cordelinhos, porque o fizeram e o que fizeram, e

Portugal precisa de fazer o mesmo. De analisar porque alguém teve esse

incentivo, no Governo e nos bancos, para pedirem tanto emprestado e

como se pode solucionar esse problema no futuro", diz o...

domingo, 9 de setembro de 2012

Por Antonio Martins

“José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, Mario Draghi, do BCE, e Angela Merkel, chanceler alemã Novo pacote imposto à Grécia reduz, além do salário mínimo, fins-de-semana e férias. BC quer submeter mais países a choques


As hipóteses de pensadores como Manuel Castells e Ignacio Ramonet, que enxergam recrudescimento da luta de classes na Europa e riscos de retrocesso social profundo, ganharam nova força nos últimos dias. Na terça-feira (4/9), o jornal londrino The Guardian vazou o conteúdo de uma carta-ultimato radical, dirigida pela chamada troika (União Europeia, Banco Central Europeu e FMI) ao governo grego. Enviado às vésperas da viagem de uma “comissão de inspetores” a Atenas, e redigida na forma de um elenco seco de exigências, o documento concentra-se nas relações de trabalho.

Requer mudanças profundas – e inimagináveis, há apenas alguns meses – nas leis que protegem os direitos laborais. Além de livrar as grandes empresas de boa parte das leis trabalhistas, concede-lhes ampla redução de impostos, o que debilitaria ainda mais os serviços públicos. Não se trata, porém, de algo limitado à Grécia. Nesta quinta-feira (6/9), ao anunciar novas ações para evitar um colapso financeiro do euro, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mário Draghi, comunicou que a instituição poderá submeter outros países em dificuldades a semelhantes “medidas de estrita e efetiva condicionalidade”.

A vastidão das propostas exigidas de Atenas levou o site World Socialist a enxergá-las como ”um retrocesso às condições de trabalho que vigoravam nos países capitalistas durante o século 19″. Não parece haver exagero na imagem. A troika exige explicitamente, por exemplo, o fim da jornada de 40 horas – que inspirou a maior parte das lutas sociais a partir de 1860 e foi gradualmente conquistada na virada para o século 20. A carta é clara: cobra “flexibilidade ampliada dos horários de trabalho” e específica: em particular “aumento do número máximo de dias de trabalho, para seis por semana, em todos os sectores”.

Estender a jornada laboral, num país onde toda a economia está deprimida, estimulará os empresários a produzir o mesmo com menos empregados. Sintomaticamente, o ultimato também exige que sejam reduzidos em 50% os prazos de aviso prévio e custos indemnizatórios das demissões. Mas vai adiante. Pede nova compressão do valor nominal do salário mínimo – já achatado em 21% este ano. Chega aos detalhes: reivindica alterar as leis gregas que estabelecem intervalo mínimo entre as jornadas de trabalho. “A ideia é que os empregadores possam convocar os assalariados a qualquer momento, acabando com a estabilidade dos horários de trabalho”, afirma Panagiotis Sotiris, professor da Universidade do Egeu.

Nem as férias serão preservadas, se as pressões da troika forem aceitas. A carta a Atenas propõe autorizar os empregadores a fatiar o período contínuo de descanso remunerado em dias esparsos, concedidos ao longo do ano. Para os patrões, cômodo e barato – porque permite dispensar os assalariados em períodos de baixa atividade, por exemplo. Para os trabalhadores, equivale à obrigação de permanecer disponíveis, em todas as épocas do ano, às tarefas definidas pela empresa.

Muitas das exigências contrariam leis e normas gregas – e talvez fosse difícil propor ao Parlamento uma bateria de decisões impopulares. Por isso, a troika tem uma reivindicação de caráter genérico porém devastador, inclusive por humilhar a soberania nacional. Quer desmantelar o sistema actual de fiscalização do trabalho, retirando completamente sua autonomia e colocando-o sob supervisão direta da União Europeia. Ainda que muitas das leis que impedem a super-exploração dos assalariados sejam mantidas, terão pouca eficácia prática. Os funcionários encarregados de garantir seu cumprimento serão comandados por burocratas comprometidos com o sentido geral das novas ordens.

Na mesma carta em que incentiva o ataque generalizado aos direitos dos trabalhadores, a troika reivindica redução das contribuições das empresas aos sistemas de Saúde e Previdência, além de isentá-las de outros impostos. Segundo The Guardian, o ultimato estabelece prazo curto para as decisões. A União Europeia estaria insatisfeita com a “paralisia” do novo governo conservador grego, eleito em maio e até agora incapaz de impor os cortes de direitos sociais e serviços públicos que lhe foram exigidos.

Agora, as cartas estão na mesa, segundo o jornal britânico. Ou Atenas executa as exigências do ultimato, ou não receberá a segunda parcela (14,6 bilhões de euros) de um “resgate” indispensável para manter até mesmo as despesas essenciais do Estado – como o pagamento dos servidores públicos e dos aposentados. A alternativa seria emitir moeda própria e deixar o euro – com consequências ainda imprevisíveis, tanto para a Grécia quanto para a moeda comum.

Ao que tudo indica, porém, Atenas pode ser apenas a primeira vítima de uma nova fase do ataque aos direitos sociais na Europa: a partir de agora, ainda mais intenso e coordenado que ao longo dos últimos três anos. Na quinta-feira (6/9), após uma bateria de encontros com governantes europeus (em especial com a chanceler alemã, Angela Merkel), o presidente do BCE anunciou finalmente que o banco passará a comprar títulos públicos de países em dificuldades de rolar suas dívidas nos mercados.

A ação do BCE era esperada há muito, por todos. Por meio dela, países que foram obrigados a elevar em muito as taxas de juros oferecidas aos credores (como Espanha e Itália) poderão ter, a partir de agora, certo alívio. Mas Mário Draghi estipulou, também, algo inesperado. As intervenções do banco não serão automáticas, como ocorre com os bancos centrais de todos os países. Para iniciá-las, o BCE exigirá dos governos em dificuldades que peçam formalmente apoio. Ao fazê-lo, deverão comprometer-se a “contrapartidas estritas e efetivas”. A Espanha seria séria candidata a inaugurar a lista. Angela Merkel encontrou-se, também nesta semana, com o primeiro-ministro Mariano Rajoy e teria exigido este novo passo.

Os mercados financeiros comemoraram o anúncio de Draghi. As bolsas de valores subiram acentuadamente hoje, em toda a Europa e em Nova York. Tendo em vista o sentido das medidas que se pretende impor às sociedades, só se pode ver, na celebração, o “recrudescimento da luta de classes” mencionado por Castells e Ramonet.”

terça-feira, 4 de setembro de 2012

cimeira dos não alinhados


Romper a opressão do poder ocidental

Já é  tempo de os EUA cessarem de desempenhar o papel de guia, pensando e tomando  decisões para outros países. Como um primeiro passo, os estados membro do  Movimento dos Não Alinhados (MNA) deveriam fazer esforços para libertar o  Conselho de Segurança da ONU do seu cativeiro servil aos EUA e seus aliados. 
Apesar da deliberada desatenção do ocidente e do desprezo para com a  Cimeira do Movimento dos Não Alinhados, em Teerão, não se pode negar o facto de  que o evento provocou extremo desgosto em Washington e Israel e que o diálogo  entre civilizações para alcançar a paz global ainda é uma poderosa  factibilidade.
Exactamente na véspera da inauguração da cimeira do MNA,  o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu manifestou o seu cinismo  típico e condenou o comparecimento de representantes de alto nível de mais de  120 países ao evento dizendo que este era "uma mancha sobre a humanidade". A  causa da raiva desesperada de Netanyahu é contudo bem perceptível.
A 16ª  Cimeira do MNA que foi oficialmente encerrada em Teerão na sexta-feira acabou  com uma resolução que incluía mais de 700 cláusulas. A resolução final que foi  lida pelo presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad manifestou apoio ao programa de  energia nuclear do Irão, rejeitou as sanções unilaterais dos EUA contra a  República Islâmica e apelou a maiores esforços para defender a causa palestina e  cessar a discriminação racial por todo o mundo.
A cimeira do MNA tratou  um certo número de questões espinhosas que o ocidente deturpa, tal como o  programa de energia nuclear do Irão, ou menospreza, tal como a questão palestina  e os não autorizados ataques com drones dos EUA que ceifaram as vidas de muitos  civis no Paquistão, Afeganistão, Somália e Iémen.
Foi uma oportunidade  para os participantes que já têm seus países agarrados pelo pescoço manifestarem  as suas queixas. O ministro dos Estrangeiros paquistanês, Hina Rabbani Khar,  exprimiu a preocupação do seu país para com os ataques ilegais de drones no  Paquistão e instou Washington a por um fim imediato à sua máquina da morte no  Paquistão.
"A posição do Paquistão é clara hoje e tem sido clara no  passada. Nossa posição é que isto é algo contra-producente. É ilegítimo. É  ilegal e portanto deve cessar. Foi isto que o parlamento do Paquistão declarou  claramente", disse Rabbani Khar na quarta-feira.
Entretanto, central à  cimeira foi o vigoroso discurso do  Aiatola Seyyen Ali Khamenei , o líder a Revolução Islâmica que reiterou  claramente a posição oficial da República Islâmica sobre algumas questões chave,  incluindo armas nucleares, e clarificou que o Irão nunca pretendeu produzi-las,  nunca avançará num caminho tão horrendo e que a execução, utilização e produção  de tais armas é um pecado imperdoável. A sua análise profunda da política  paradoxal de Washington merece a devida atenção. Apontando para "uma amarga  ironia da nossa era", o Aiatola Khamenei reforçou o facto de que o governo dos  EUA "possui a maior e mais mortal acumulação de armas nucleares e outras armas  de destruição em massa, e o único país culpado pela sua utilização, está hoje  ansioso por conduzir a bandeira de oposição à proliferação nuclear" e que o  mesmo regime armou o regime usurpador sionista com armas nucleares e criou uma  grande ameaça para esta região sensível".
De facto, Washington e Tel  Aviv estão a jogar nas mãos do diabo nos seus esforços para dividir nações e  colonizar seus países pela criação de "inimigos globais" e brutalmente mobilizar  outros contra eles.
Em relação a isso, a Cimeira MNA pode desempenhar um  papel vital desviando o papel destrutivo do governo dos EUA e outras potências  ameaçadoras ao avançar com suas agendas globalistas para um papel construtivo  sob a égide dos membros do MNA. Reagindo aos efeitos de uma cimeira com  significado tão substancial, os media ocidentais censuraram a venda e  coibiram-se de relatar os factos, o que de um modo ou de outro mostrou a sua  agenda oculta. O blackout dos media no ocidente em relação à Cimeira de Teerão é  o equivalente ao blackout da verdade e da fidedignidade, um sinal mórbido que  indica claramente que esforços globais para alcançar a paz e a harmonia são  afinal de contas empurrados para o abismo do fracasso. A fim de destruir o  poderio da máfia dos media, o responsável da Islamic Republic of Iran  Broadcasting (IRIB), Ezzatollah Zarghami, sugeriu que o Movimento dos Não  Alinhados estabelecesse um bloco alternativo de media. Tal iniciativa é na  verdade louvável e deve ser considerada um meio eficaz para contrabalançar a  cegueira enviesada dos media.
Com plena convicção, pode-se tristemente  dizer que há mãos sabotadoras em acção para frustrar os esforços na luta pela  paz global à luz de uma liderança unida. O que realmente deveria ser prioridade  em futura cimeira do MNA é formular uma abordagem efectiva para resolver a crise  global e lutar para conseguir um consenso internacional para reduzir a  influência política de Washington e a sua auto-proclamada liderança ditatorial.  Já é tempo de os EUA cessarem de desempenhar o papel de guru e de pensarem e  tomarem decisões para outros países. Como primeiro passo, os estados membro do  MNA deveria fazer esforços para libertar o Conselho de Segurança da ONU do seu  cativeiro servil aos EUA e seus aliados.
Uma nova ordem mundial está a  tomar forma. Nesta nova ordem mundial, o imperialismo começa a esvair-se e a  ideia de crescentes expedições militares sob a bandeira de combater ao  terrorismo ou ditar a democracia ocidental em breve evaporar-se-á. Esta ideia  pode estar a grande distância da realidade mas não é uma impossibilidade. Ela  pode ser transformada em realidade graças ao poder emanado dos esforços  colectivos de todas as nações. É exactamente isto que o ocidente conduzido pelos  EUA mais teme e o que o mundo mais precisa: uma vontade unida de nações a  impor-se claramente face à injustiça e de acordo com o direito.