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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

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Porque Alberto João Jardim governou assim: a responsabilidade é das instituições de um país, Presidência, Governo, Parlamento e Tribunais que nunca disseram “isto é inadmissível”.


Toda a gente concorda com toda a gente. Alberto João Jardim falseou as contas da Madeira, fez um rombo na credibilidade do país, envergonhou os seus concidadãos perante o mundo e ainda se orgulha disso. Toda a gente concorda que agora as coisas chegaram longe demais. Se o papel do cronista é acrescentar alguma coisa ao debate público, eu comecei já falhando. Toda a gente concorda, e eu concordo com toda a gente.

Só uma coisa: Alberto João Jardim, não é surpresa para ninguém. Há mais de trinta anos que ele está aqui. Governou a Madeira como quis, com os recursos que quis, durante o tempo que quis. Isto é: deixaram-no governar assim. Como se fossemos um país sem divisão de poderes nem democracia digna desse nome, foi permitido que a Madeira se tornasse uma realidade à parte, onde as liberdades e as leis da República não eram para levar a sério. Toda a gente que tinha de saber o que ali se passava, sabia-o. Ninguém que tinha de fazer alguma coisa o fez. Poupem-nos à conversa do “já chegámos à Madeira” ou do “já chegámos à Grécia”. Onde nós chegámos na semana passada foi a Portugal. Chegámos à República Portuguesa, e ao seu Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, que quando foi à Madeira aceitou não visitar o parlamento e acabou recebendo a oposição num quarto de hotel. Chegámos à política portuguesa e a um dos seus maiores partidos, o PSD, que nestes trinta anos foi validando e legitimando tudo o que Alberto João Jardim fez. Chegámos à Procuradoria-Geral da República, que só agora se lembrou de investigar o governo regional da Madeira, apesar do Tribunal de Contas detectar irregularidades nas contas madeirenses desde 2006. E poupem-nos também à conversa da culpa que é de nós todos. A culpa é de quem deixou Alberto João Jardim governar assim. A culpa é de quem nunca levantou a voz. A culpa é de quem se esqueceu das suas obrigações constitucionais. A culpa é das instituições de um país — Presidência, Governo, Parlamento, Tribunais — que nunca disseram “isto é inadmissível”.

Engana-se quem achar que as coisas mudaram.

Pedro Passos Coelho tinha um argumento na Europa, e um argumento apenas: nós não somos a Grécia. Alberto João Jardim feriu de morte esse argumento. Nesse quadro, Pedro Passos Coelho não pode limitar-se a endossar responsabilidades ao eleitorado madeirense.

Foi essa atitude que nos perdeu. Cada primeiro-ministro esperou que o eleitorado madeirense lhe resolvesse o problema que ele evitava encarar, esquecendo as suas próprias responsabilidades. Em caso de dúvida encolhia os ombros e dizia: “é a democracia”. Mas a democracia não é só o povo eleger quem quiser. É também ninguém estar acima da lei.

Já chegámos a Portugal, portanto. E ainda não saímos.



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