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domingo, 1 de junho de 2014

Ler o Eça, por exemplo





A Relíquia de

                                           Eça de Queirós


Capítulo 1



Meu avô foi o Padre Rufino da Conceição, licenciado em teologia, autor de uma devota Vida de Santa Filomena, e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, chamava-se Rufino da Assunção Raposo, e vivia em Évora com minha avó, Filomena Raposo, por alcunha a "Repolhuda", doceira na Rua do Lagar dos Dízimos. O papá tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no Farol do Alentejo.

Em 1853, um eclesiástico lustre, D. Gaspar de Lorena, bispo de Corazim (que é em Galiléia), velo passar o São João a Évora, a casa do Cônego Pita, onde o papá muitas vezes a noite costumava ir tocar violão. Por cortesia com os dous sacerdotes, o papá publicou no Farol uma crónica laboriosamente respigada no Pecúlio de Pregadores, felicitando Évora "pela dita de abrigar em seus muros o insigne prelado D. Gaspar, lume fulgente da Igreja, e preclaríssima torre de santidade". O bispo de Corazim recortou este pedaço do Farol, para o meter entre as folhas do seu breviário; e tudo no papá lhe começou a agradar, até o asseio da sua roupa branca, até a graça chorosa com que de cantava, acompanhando-se no violão, a xácara do Conde Ordonho. Mas quando soube que este Rufino da Assunção, tão moreno e simpático, era o afilhado carnal do seu velho Rufino da Conceição, camarada de estudos no bom seminário de São José e nas veredas teológicas da Universidade, a sua afeição pelo papá tomou-se extremosa. Antes de partir de Évora, deu-lhe um relógio de prata; e, por influência dele, o papá, depois de arrastar alguns meses a sua madraçaria pela alfândega do Porto, como aspirante, foi nomeado, escandalosamente, diretor da alfândega de Viana. (...)

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