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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Não lutes e fia-te em deus...

Catarina Martins. "As pessoas viraram-se mais para a Igreja e isso é um retrocesso social"


por Sónia Cerdeira, Publicado em 30 de Agosto de 2011
Actualizado há 14 horas

.A deputada do Bloco de Esquerda trocou o palco do teatro pelo plenário em 2009. É dura na crítica à ausência do papel social do Estado

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Do Porto para Lisboa. Dos palcos para o plenário da Assembleia da República. Catarina Martins, actriz de profissão, deixou o teatro para ingressar na política. Deputada do Bloco de Esquerda desde 2009, culpa "toda a esquerda" pela vitória da direita nas últimas eleições. Mas também considera que os eleitores se sentiram "impotentes" e "acreditaram na ideia de que a democracia só funciona numa pequena percentagem". Com a crise que o país está a sofrer, afirma que as pessoas se "viraram mais para a Igreja", o que considera um "retrocesso social". "Quer dizer que o Estado está a falhar", conclui.







Como iniciou o percurso na política?



Quando estava no secundário e fiz manifestações contra a PGA (Prova Geral de Acesso). Nos governos de Cavaco Silva havia aquele péssimo hábito de tratar as manifestações à bastonada, era Ferreira Leite ministra da Educação. Tendo a não esquecer as pessoas que me bateram.



Mas levou bastonadas?



Fugi mais do que levei. Uma amiga minha ficou bastante mal uma das vezes. Mas pronto, lutei contra o aumento das propinas nessa altura, fui muito activa em Coimbra nos anos 90 e depois fui politicamente activa acima de tudo no sector cultural e das artes cénicas. Surgiu no Porto a primeira associação formal do sector, que é a Plateia, e fui a primeira presidente.



E como entrou para o BE?



Nunca tive actividade partidária. Quando era adolescente ainda sem idade sequer para votar colei cartazes para o PSR e quando estava na Universidade cheguei a ser candidata pelo PSR à Assembleia Municipal, mas nunca fiz parte do partido. Depois não tive vida partidária nunca, o BE convidou-me para ser candidata como independente e só depois dessa proposta é que decidi aderir ao Bloco, em 2010. Nunca tinha sido de nenhum partido.



Quais as diferenças entre BE e PCP?



Grande parte da minha família é do PCP. Considero que o PCP não soube retirar as consequências que devia da história e do que é ser de esquerda. Ser de esquerda em todos os momentos é muito mais importante que em todos os momentos defender alguma coisa que algum dia se aventou como ser de esquerda, ainda que já não seja. E a nossa capacidade de viver com o mundo que vai mudando, sabermos discuti-lo e sabermos viver com diversidade é para mim fundamental, e isso existe no BE.



Está a dizer que o PCP é mais ligado ao passado e o BE mais ligado à mudança e às novas gerações?



Há todas as gerações nos dois partidos. Mas são partidos diferentes, que se afirmam de formas diferentes e vêem o mundo de formas muito diferentes. O BE é um partido internacionalista e para o qual a defesa de valores como os direitos humanos tem de se fazer em todo o tempo e em todos os países.



Qual a diferença entre estar nos palcos e no plenário?



Sou actriz de teatro. A arte é uma construção que não tem nada a ver com estar no plenário. Mas é verdade que tanto quando estamos num palco como quando estamos no plenário há aquela ficção que é criada entre todos, que é na realidade estarmos a falar entre nós mas estarmos a falar para fora. Só que no teatro estamos todos lá para fazer a mesma coisa, para sermos capazes de contribuir para aquele momento artístico, e portanto há uma grande união. É um ambiente não hostil, em que as pessoas comungam. O plenário é um ambiente hostil.



Representa-se muito nos debates?



Todos nós representamos as ideias que defendemos em cada momento. Uma coisa diferente é achar que a representação é algum tipo de hipocrisia. Não acho que no teatro haja hipocrisia. Há uma verdade muito crua, na política há hipocrisia. Ainda hoje de manhã [quarta-feira] na comissão de Economia estivemos a discutir uma estrada. Interessa perceber que há partidos que localmente defendem uma coisa e do ponto vista nacional defendem outra. Esse tipo de hipocrisia local, eleitoralista ou caciquista, mina a democracia, porque não sabemos realmente quem representa o quê em cada momento.



Continua a ser actriz?



Ao princípio tinha espectáculos marcados, quando fui eleita, e durante dois meses ainda fiz alguns, mas depois fui substituída. Exige uma disponibilidade física e mental que não conseguia. Tento manter alguma ligação ao que fazia. Estou a fazer o doutoramento nessa área e é a minha forma de continuar a ligação.



Como foi mudar de vida?



Tenho três casas, o Porto, o Alfa e Lisboa. Passo muito tempo nos comboios. Tive uma mudança grande, tenho duas filhas pequenas que vieram para a escola em Lisboa. Embora tenha pouco tempo, acho que ser mãe passa por tomarmos pequenos-almoços juntas, dar dois berros para se vestirem para irem para a escola, não se é mãe só ao fim-de-semana, é preciso este quotidiano. Neste momento temos a vida um bocadinho dividida, o meu marido está no Porto e eu estou cá.



Sente que por ser mulher tem de se esforçar mais que os homens?



Existe o preconceito, agora não é só na Assembleia, é na sociedade como um todo.



O parlamento ainda é controlado por homens?



Sim. Continuam a ser a maioria e a actividade política continua a ter uma maioria de homens. Vamos tendo avanços, mas estamos muito longe de ter uma actividade política e decisão política maioritária, que represente a sociedade. O ridículo de tudo isto é termos uma sociedade que tem tantos homens como mulheres e depois as decisões estão só nas mãos de metade. Tem a ver com equilíbrios e na Assembleia não há equilíbrios.



Ficou feliz com a eleição de Assunção Esteves como presidente da Assembleia?



Gosto que seja uma mulher, mas isso não significa que se for uma mulher está tudo bem. Entre as mulheres há grandes divergências, e ainda bem que as há.



O BE ficou com um grupo parlamentar reduzido. Foi um castigo do eleitorado?



Não. Se fosse um castigo estava muito mais descansada. Estou muito mais preocupada porque acho verdadeiramente que houve uma viragem à direita. O que é preocupante. Temos uma população que se sentiu prisioneira de decisões que não tomou e achou que não havia solução. Temos mais de 85% dos eleitores que votaram no acordo com o FMI. Ninguém votou com certeza em ter menos salário ou pagar mais pelos transportes públicos, mas considerou que não havia alternativa. Acreditaram na ideia de que a democracia só funciona numa pequena percentagem. Que somos impotentes. É isso que assusta.



Foi culpa da esquerda?



De toda a esquerda. A direita venceu.



O que faltou para convencer?



Se houvesse um remédio fácil resolvia-se já. Há um discurso hegemónico sobre a ideia de inevitabilidade e austeridade da recessão. E é a ideia dominante na comunicação social, em tudo, até na ficção que vemos nas séries a que assistimos. Há todo um pensamento sobre o mundo e este momento em particular que a esquerda não tem sido capaz de combater.



E o que pode fazer de diferente?



Tem de encontrar novas formas e insistir em formas que já usa para discutir os caminhos que estão a ser escolhidos. Estamos com uma situação gravíssima em Portugal, a nível europeu, e não a estamos a discutir. E a esquerda tem de arranjar canais para a discutir de uma forma que chegue à vida das pessoas.



Francisco Louçã devia ter-se demitido?



Não. É uma ideia que tem tido mais peso fora do BE do que dentro.



Mas tem de haver renovação?



Sempre. Mas isso não é por causa do resultado eleitoral. Um partido que não se renova é um partido que morre. Seria um perigo os partidos acharem que por terem bons resultados tinham de permanecer estáticos e quando há maus resultados tinha de se mudar tudo. O partido precisa de renovação sim, tem-na feito. Tem de ser a partir do debate das ideias, não pode ser uma reacção ao que corre mal.



Como é estar num grupo parlamentar com metade dos deputados?



Para mim é uma novidade, para muitos dos meus camaradas não. Voltámos a ser oito. Na prática tenho mais comissões, é mais exigente.



Com vê o ensino artístico nas escolas? Deve estar nos currículos?



Deve ser obrigatório. Temos de aprender a ler a escrever em matemática, mas também em música. Tem a ver com termos ferramentas de conhecimento. Quando se fala nos problemas de qualificação da população, choca-me que ninguém diga que isto também acontece pela falta de contacto com a arte e a cultura, e não só pelo sistema de ensino. Temos muitos projectos-piloto, as crianças participam e depois nunca mais fazem nada na vida. Temos sempre projectos muito engraçados e giros uma vez na vida, mas depois não há evolução.



Como tem visto a actuação do novo governo nesta área?



Assusta-me muito um programa para a cultura que diz que a arte deve ser financiada de acordo com os mercados. Se a arte se transformar em entretenimento, deixa de haver criação artística fora do mercado de entretenimento. É como dizer que não podemos ter ciência pura e só podemos ter tecnologia. Se não financiarmos o cinema, a não ser de acordo com as receitas que o filme consegue gerar nos dois meses em que estreia, estamos a ser burros, no mínimo. O programa do governo confunde arte e entretenimento.



É a favor da despenalização das drogas leves?



Não há qualquer vantagem em penalizar. Há algumas drogas que são legais, como o álcool ou o tabaco. Não ganhávamos nada em penalizar o consumo dessas, por exemplo. Descriminalizar o consumo em Portugal foi muito importante, controlámos muito mais. Estávamos numa espiral negativa e agora estamos a ter bons resultados e sabemos que os países que despenalizaram tiveram bons resultados do ponto de vista da saúde pública e do controlo do tráfico.



Acredita em Deus?



Não.



Como vê a actuação da Igreja na sociedade?



A hierarquia da Igreja tem feito declarações inaceitáveis, no sentido de dizer que as pessoas não se devem defender dos ataques de que estão a ser alvo. Não tem sentido dizer que na sociedade actual as pessoas não se podem queixar. Se as democracias fossem só o voto, estávamos mal. A democracia é a capacidade de debater. Dizer que não pode haver debate e confronto é muito perigoso. Sou muito crítica também sobre a defesa da troca de direitos sociais por caridade. É também o sentido em que vai o governo. A caridade não é própria de um Estado de direito democrático. Devemos garantir às pessoas os mínimos para viverem, e isso não pode estar dependente da caridade. O Estado tem de se organizar para proteger as pessoas em situações mais frágeis. Isto não quer dizer que a Igreja não tenha instituições interessantes e personalidades importantes, que até têm sabido denunciar o aumento da pobreza. O que noto é que as pessoas se viraram mais para a Igreja e isso é um retrocesso social. Quer dizer que o Estado está a falhar.





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